Ypiranga Filho, artista plástico

Ypiranga Filho

Lourenço Ypiranga de Souza Dantas Filho nasceu no Recife-PE em 1936. É escultor, gravador, fotógrafo e restaurador.

Aos 26 anos, após formação e atuação profissional em técnicas de radioimagem e fotografia, estudou pintura e escultura na Escola de Belas-Artes da Universidade do Recife-PE.

Suas referências foram os mestres Vicente do Rego Monteiro, Lula Cardoso Ayres e Gastão de Holanda.

As experiências em cursos e estágios na Universidade de Brasília-DF, em Berlim (Alemanha) e em Paris (França) marcaram sua formação. Realizou 11 exposições individuais, também integrando mais de 110 coletivas no Recife, Olinda, Mainz (Alemanha), Belo Horizonte-MG, Natal-RN, Curitiba-PR, Rio de Janeiro-RJ, Salvador- BA, São Paulo-SP e Roma (Itália).

As mais recentes foram no Museu de Arte Contemporânea em Olinda-PE, em 2002, no Instituto Tomie Ohtake-SP, em 2007, e no projeto “Olinda Ar te em Toda Parte”, em Olinda-PE, em 2010. Participou da 8ª Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Florença (Itália) em 2011.

Dono de uma personalidade forte e talento sem iguais, Ypiranga desde cedo identificou-se com a arte realizando trabalhos de pintura, escultura, fotografia, gravuras, cenários… repensou conceitos, criou visões.

Ypiranga nas primeiras eras

Ypiranga saiu de casa porque queria ir para a legião estrangeira, mas acabou ingressando, aos dezesseis anos, na Aeronáutica. Suas primeiras esculturas foram feitas, aos vinte anos de idade, em concreto e retratavam pessoas e figuras folclóricas. Depois de oito anos na Aeronáutica, acabou se chateando, porque fora obrigado a usar óculos. É que Ypiranga queria se transferir para a Marinha, mas o major, que era contra sua saída, fez uma proibição velada: obrigou-o a usar óculos, mesmo não precisando. “Como piloto não pode usar óculos dancei. E ainda tinha que andar tropeçando por aí”, conta o artista.

Desestimulado e decepcionado, Ypiranga optou pela Escola de Belas Artes. Fez concurso do DASP, passando em primeiro lugar no Nordeste, como prêmio, deram-lhe um posto de trabalho no mesmo departamento do pai, no IAPI, “Mas é danado um negócio desse, eu rodei, rodei e acabei me lascando. Ele me chamava de Seu Ypiranga e eu chamava ele de Dr. Ypiranga”. Mesmo com a formalidade e a divergência política, pai e filho acabaram se entendo.

Durante a estadia de Ypiranga na Alemanha, em 1972 e 73, onde fez cursos de alemão, neuroradiologia e fotografia publicitária, a correspondência entre os dois era muito intensa, “escrevíamos cartas homéricas”.

Ypiranga Filho: o invencionista da Ribeira

Joana Rozowykwiat – 07/11/2003

No Mercado da Ribeira, trabalha um artista multifacetado, que participa de todos os processos da confecção de uma obra de arte, desde a fabricação da tinta. Ypiranga Filho é escultor, pintor, desenhista, técnico em radiologia, fotógrafo publicitário, soldador e marceneiro. Todo este repertório de informações e conhecimentos traduz-se na arte inovadora e engajada deste olindense de coração.

Nascido em 1936, no Recife, Ypiranga encantou-se pela cidade patrimônio, ainda criança, aos nove anos, quando veraneava nos Milagres. O fascínio começava no caminho entre os municípios vizinhos. Ia de bonde, mas não era um bonde comum. Popularmente chamado de cristaleira, era todo feito de vidro.

O menino Lourenço Ypiranga de Souza Filho estudava no Colégio Carneiro Leão, único da época que não ensinava religião – é ateu até hoje. Nas férias, encontrava diversão nas águas olindenses, onde, por traquinagem, quase se afogou certa vez.

Aos 16 anos, resolveu ser militar, alistou-se na aeronáutica. “O que eu queria mesmo, era sair da casa dos meus pais, me aventurar”, admite. Neste período, estudou muito, especializou-se em radiologia e fez vários cursos em áreas totalmente díspares. Pelos cursos, recebia gratificação em dinheiro. Foi neste período que aprendeu a ser carpinteiro, soldador e marceneiro. Virou técnico em neuroradiologia.

Ainda como militar, ingressou no curso superior de pintura, da Escola de Belas Artes. Depois, no de escultura. Fez contato e a amizade com artistas com os quais trocou influências, como Vicente do Rêgo Monteiro, Murillo La Greca e Lula Cardoso Ayres. Aos 32 anos, largou a aeronáutica.

Mudou-se para Olinda, a fim de participar, em 1964, do Movimento da Ribeira. Foi presidente da Cooperativa de Artes e Ofícios, que pretendia dar apoio à arte popular, eliminando preconceitos existentes contra aqueles que não eram eruditos.Assim, música, artes plásticas, literatura, marcenaria, serralharia, carpintaria e carpintaria naval se integraram, fazendo um trabalho em conjunto. Figuras como Mariza Lacerda, Bajado e Olímpio Bonald também fizeram parte do movimento. Foi uma época de grande desenvolvimento artístico de Olinda, na qual fervilhavam iniciativas culturais.

Em 1972, Ypiranga era trotskista, líder do movimento estudantil. Chegou a ser 1º secretário do DCE, portanto não pôde conviver com o Regime Militar, que o obrigou a partir para a Alemanha. Foi, por quatro anos, bolsista do governo comunista, em Berlim. Se a aeronáutica não lhe tinha fornecido toda a disciplina possível, quatro anos na Alemanha sanaram este problema.

Estudou alemão, radiologia e fotografia voltada para a publicidade. Paralelamente, no sindicato dos artistas plásticos, participava de uma espécie de núcleo de troca de conhecimentos. Ensinava a elaboração de gravuras, no estilo nordestino. Segundo ele, durante os primeiros meses, desaprendeu a rir. Depois, conheceu a malandragem. “Lá, tudo era cinza. Isso dá uma neurastenia na gente…Mas inteligência é capacidade de adaptação”, comentou.

Voltou ao Brasil em 1976. “Quem falava comigo deixou de falar; os que não me cumprimentavam, viraram amigos. Diziam que eu tinha virado estrangeiro”, lembra. Tornou-se professor, trabalhou em um programa de extensão da UFPE, dando aulas profissionalizantes em comunidades carentes, por 18 anos.

Nunca deixou de fazer gravura. Por isso, foi convidado pela prefeita Luciana Santos para organizar o EGO, Espaço da Gravura em Olinda, na Ribeira. Trabalha lá todos os dias, dando aulas, supervisionando o trabalho dos artistas, orientando, criando novas técnicas, fazendo misturebas, inventando novos materiais, num misto de alquimista e artesão.

No espaço, ensina xilo, lito, lino, metal e eucatexgravura, pesquisando materiais alternativos, reciclando e, principalmente, produzindo. “Desenho é técnica. Qualquer um pode fazer uma gravura. O difícil é escolhe o que se vai retratar. Um desenho de cunho social, que tenha uma ideologia, é o mais complicado”, diz o artista, que se filiou ao PCdoB há pouco tempo. “Cheguei à conclusão de que poderia contribuir mais assim, vinculado a um partido”.

Experimentar é uma característica de Ypiranga, que encara a ciência como parte da arte e, ao longo da vida, acumulou conhecimentos dos dois lados. “A radiologia me ajudou muito, na arte. Fez com que eu tivesse uma noção de geometria descritiva, de espaço”, exemplifica. Para criar suas peça, pesquisa exaustivamente em cima de um tema. Depois, procura os materiais adequados, se não os encontra entre os convencionais, inventa.