1. Substantivo feminino. Pernambuco: Orquestra sobre rodas (baseada no trio elétrico) surgida em 1980, com 32 músicos e um cantor arrastando as multidões pelas ruas do Recife.

2. Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte: Agitação, inquietude, frevioco, azáfama.

“Mas porém como a formiga / em todo canto se soca / dos casco até a barriga / começou a frivioca / e no corpo se espaiando /o zebu foi se zangando / e os cascos no chão batia / mas também não miorava, / quanto mais coice ele dava / mais formiga aparecia.” O boi zebu e as formiga, Patativa do Assaré, em “Ispinho e Fulô“.

Fonte: Dicionário do Nordeste, Fred Navarro, Companhia Editora de Pernambuco – Cepe, 2013.

Orquestra simplificada para executar frevos. Surgiu na imprensa em 1914; caiu no esquecimento, sendo retomada em 1980, como um modo novo de apresentar o frevo, origem do trio elétrico.

Fonte: Dicionário do Carnaval de Pernambuco, Profª. Nelly Medeiros de Carvalho e Sophia Karlla Almeida Mota (Universidade Federal  de Pernambuco).

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Frevioca em 1980

Frevioca II

A frevioca, uma espécie de trio elétrico, foi criada em 1979 e saiu pela primeira vez no carnaval do Recife em 1980. Montada na carroceria de uma caminhonete pelos cenógrafos do Teatro de Santa Isabel, Jair Miranda e Mestre Zezinho, e a equipe de carpintaria da Fundação de Cultura do Recife da época. Integrava a frevioca uma uma orquestra composta por 32 músicos, sob a regência do maestro Ademir Araújo, o Maestro Formiga, e a participação do cantor Claudionor Germano.

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O bonde da Frevioca

“Foi uma emoção muito grande quando eu vi o povo cantando com a gente na rua, não estava acostumado a vê-lo. Eu conhecia o carnaval de clube de Recife, mas na rua eu não conhecia”, lembra o cantor Claudionor Germano.

Em 1989, a frevioca já havia se tornado mais espaçosa sobre a carroceria de um ônibus e recebeu Sivuca, o gênio do acordeão. O inventor conta que a intenção foi criar um veículo que pudesse circular pelas ruas da cidade e animar os diversos pontos de folia e ressalta que os trios-elétricos são bem diferentes.

O “trio” da Frevioca

“O trio-elétrico são formas percussivas e a frevioca são instrumentos de sopro, divididos entre palhetas e metais”, conta Leonardo Dantas Silva, o criador da frevioca, então recém-nomeado como o primeiro presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife.

Constituindo-se logo num grande sucesso, a Frevioca foi objeto de um editorial do jornal Diario de Pernambuco, na edição de 13 de fevereiro de 1985, abaixo transcrito:

“Uma idéia feliz é essa que se está implantando em veículo de tração motora transformado em bonde, com orquestra e cantores, na tentativa de, percorrendo as ruas da cidade, durante o período momesco, animar o carnaval recifense. O velho Recife de Santo Antônio e de São José começou a ferver nesta semana pré-carnavalesca com a “Frevioca”, uma versão bem pernambucana dos trios elétricos, com vantagens outras que aos poucos há de pegar. Não há de ter exigido investimentos maiores, pois tudo se exibe com simplicidade, mas dentro das melhores tradições do carnaval pernambucano. A “Frevioca” promove assim um reencontro com temas recifenses: o bonde, a orquestra, o solista, o frevo, em fim, arrastando multidões, sob o ritmo contagiante da música genuinamente pernambucana. Pelas previsões, haveremos de ter um dos mais animados carnavais dos últimos anos, apesar das tremendas dificuldades. Mas é como diz o poeta: ninguém é de ferro.”

No início, circulava apenas no centro da cidade. Posteriormente, mais bem equipada passou a circular em todos os locais onde era solicitada, levando o frevo e a animação para diversos bairros do Recife.

Participando do desfile de inúmeros blocos do carnaval recifense, inclusive O Galo da Madrugada, além de outros eventos como o Corso de Carros Antigos, a Frevioca tornou-se conhecida em todo o Brasil e o seu sucesso possibilitou a criação da Frevioca II, em 1984.

Em 2007, por ocasião das comemorações do Centenário do Frevo, as Freviocas I e II receberam novos equipamentos, como geradores, reguladores estabilizadores sem fio, microfones para os instrumentos de sopro, fones de ouvido, possibilitando melhor qualidade de som e melhor desempenho para os músicos, em número de 17, entre sopro e percussão.

Circulando bem próxima das pessoas, o que não acontece com o trio elétrico, está sempre cercada de foliões, tocando frevo-canção, frevo de bloco ou frevo de rua para animar a multidão.

Além do período carnavalesco, a Frevioca também atendeu convites para outros eventos culturais. Em 2009, participou do Dia do Poeta Recifense, comemorado no dia 16 de agosto, circulando pelas ruas, mercados e pátios do Recife, divulgando a obra de cinquenta poetas populares, que em cada parada  subiam no bonde para declamar seus poemas. Chamada de Um Bonde Chamado Poesia, percorreu os mercados de Casa Amarela, Afogados, Boa Vista, de São José, o Pátio do Carmo e a Praça da Independência.

Em 30 de junho de 2010 o vereador Estefano Menudo apresenta à Câmara Municipal do Recife um projeto de lei que concede às Freviocas I e II o título de Patrimônio Artístico e Cultural do Recife, aprovado por unanimidade entre os parlamentares.

Fontes: Prefeitura do RecifePesquisa Escolar

A Frevioca e o Carnaval do Recife

Por Leonardo Dantas Silva

Com a criação da Fundação de Cultura Cidade do Recife, pela Lei nº 13.535, sancionada pelo prefeito Gustavo Krause Gonçalves Sobrinho em 26 de abril de 1979, e regulamentada pelo Decreto nº 11.254 do mesmo ano, foi extinta a Empresa Municipal de Turismo e a organização do Carnaval do Recife passou a ser exercida pela nova instituição.

Tentou a Fundação de Cultura Cidade do Recife, como se depreende do folheto-programa do Carnaval de 1980, restaurar a tradição do carnaval participação, eliminando a passarela e os camarotes, distribuindo a comissão julgadora em cinco diferentes pontos da cidade, proclamando os vitoriosos na manhã da terça-feira, instituindo o Baile Popular do Pátio de São Pedro e o Baile Infantil na Praça da Independência, bem como o Sábado de Zé Pereira como o primeiro dia do carnaval, incentivando assim a apresentação do Galo da Madrugada (fundado em 1978), além do Frevança – Festival do Frevo e do Maracatu (cujo disco com as músicas vitoriosas era lançado na primeira semana de novembro) e da criação da Frevioca, orquestra volante de ritmos carnavalescos que veio a se tornar o mais importante veículo de animação das ruas do Recife durante o carnaval. A Frevioca de então era constituída de 32 músicos, sob a regência do maestro Ademir Araújo, tendo como cantor Claudionor Germano.

No seu Vocabulário Pernambucano(¹), Pereira da Costa conceitua Frevioca, como: pândega, folia, divertimento; club troça cordão carnavalesco: “essa bem feita frevioca dos Carregadores de Piano prepara-se cada vez mais para os dias de carnaval” (Jornal do Recife n.º 50 de 1914).

A nova criação do Carnaval do Recife, porém, veio revolucionar a animação das ruas, sendo exaltada por Fred de Góes em seu livro, O País do Carnaval Elétrico(² ) (1982), “curiosamente, no renascimento do carnaval na terra do frevo, na comemoração do cinquentenário de Capiba no gênero, surgiu um inusitado veículo, chamado FREVIOCA, que nada mais é que uma adaptação, para o modo pernambucano (para orquestra de metais) da forma de apresentação do trio elétrico”. O Diario de Pernambuco, em editorial publicado na sua edição de 13 de fevereiro de l985, saúda a nova conquista:

Uma ideia feliz é essa que se está implantando em um veículo de tração motora transformado em bonde, com orquestra e cantores, na tentativa de, percorrendo as ruas da cidade, durante o período momesco, animar o carnaval recifense. O velho Recife de Santo Antônio e de São José começou a ferver nesta semana pré-carnavalesca, com a Frevioca, uma versão pernambucana dos trios elétricos, com vantagens outras que aos poucos há de pegar. Não há de ter exigido investimentos maiores, pois tudo se exibe com simplicidade, mas dentro das melhores tradições do carnaval pernambucano. A Frevioca promove assim um reencontro com temas recifenses: o bonde, a orquestra, o solista, o frevo, enfim, arrastando multidões, sob o ritmo contagiante da música genuinamente pernambucana.

Para a realização do carnaval, a recém-criada Fundação de Cultura Cidade do Recife preparou-se com muita antecedência, procurando sanar os erros anteriores.

O Concurso Oficial de Músicas Carnavalescas, previsto nas legislações anteriores, recebeu da Fundação de Cultura Cidade do Recife a marca Frevança: Encontro Nacional do Frevo, para o qual foram iniciadas as inscrições em junho. Como uma coprodução da Rede Globo Nordeste, então representada por Wilson Emmanuel de Almeida e tendo como diretor-comercial Cléo Nicéas, sob o patrocínio das Casas José Araújo, na pessoa desse homem de carnaval Chiquinho (Francisco) Araújo, o primeiro Frevança veio a tornar-se realidade nos dias 14, 21 e 28 de setembro, além de uma finalíssima em quatro de outubro daquele ano de 1979, no Teatro do Parque que fora transformado num imenso salão de festas. O frevo-de-rua Último Dia, escrito por Levino Ferreira para o carnaval de 1951, em gravação da Orquestra de José Menezes (Rozenblit – 90008), foi escolhido pelo autor destas notas como vinheta das chamadas na televisão e abertura do novo festival.

Para o primeiro Frevança se inscreveram 218 frevos-canções, 74 frevos-de-bloco e 67 frevos-de-rua; as doze músicas vencedoras vieram a figurar no disco CA-9999 selo Cactus, da COMDIL – Companhia Distribuidora de Disco Ltda., lançado na primeira semana de dezembro de 1979.

No ano seguinte, as inscrições para o Frevança – II Encontro Nacional do Frevo e do Maracatu foram iniciadas no mês de maio, novamente numa co-promoção da Rede Globo Nordeste com o patrocínio do Sistema Financeiro Banorte. Como novidade, o concurso na sua segunda versão passava a incluir, entre os gêneros participantes, o maracatu. Para o certame foram inscritos 67 frevos-de-rua, 221 frevos-canção, 62 frevos-de-bloco e 28 maracatus. Para a fase eliminatória, realizada no mês de agosto no Teatro do Parque, foram selecionadas 48 composições (12 de cada gênero) e a finalíssima veio acontecer na noite de 19 de setembro; com transmissão pela Rede Globo Nordeste e gravação ao vivo de um disco pela RGE (LP 306.3134) com as doze vencedoras daquele festival de músicas carnavalescas para o Carnaval de 1981.

O Frevança, nas versões que se seguiram, veio a se tornar o maior acontecimento musical da região. Na sua terceira edição, o Frevança teve a inscrição de 463 músicas, com a fase eliminatória realizada no Teatro do Parque, e a finalíssima no Ginásio de Esportes Geraldo Magalhães Melo, na Imbiribeira, na noite de 18 de setembro de 1981, com transmissão ao vivo da Rede Globo de Televisão para todo o Nordeste. As vencedoras, em número de doze (três em cada categoria), foram editadas no LP 8005, da NIF-Nordeste Indústria Fonográfica Ltda., gravado e prensado na Fábrica Rozenblit, tendo o certame recebido do historiador  carioca Sérgio Cabral o seguinte comentário:

“Na minha não muito curta passagem pela música, muito pouca coisa me surpreende. Mas o Frevança é sempre  uma surpresa, por uma razão muito simples: é um dos raros momentos em  que  percebo  uma  total  integração entre a música e seus ouvintes. No Frevança,  acontece  o que  eu  imagino ser uma  emoção  até então exclusiva dos  compositores de carnaval, que é uma relação  muito especial de causa e efeito. A música,  ao ser executada, passa também a ser propriedade da multidão

Muita coisa salta aos olhos nos dias em que o Frevança explode no Recife. Uma delas é a total burrice dos responsáveis pelo consumo da música, incapazes de perceberem que alí está o filão para ser explorado em benefício deles mesmos. Que fato musical tem no Brasil uma resposta tão simpática do povo? O Frevança é um dos raros festivais de música em que todos são a favor. Ninguém quer destruir ninguém e talvez não queira nem mesmo competir. Todos – concorrentes, instrumentistas, organizadores e públicos – estão unidos numa alegria só, curtindo essa felicidade que a música pernambucana proporciona.

O curioso é que, tratando de gêneros musicais tão antigos, como o frevo e o maracatu, o Frevança é, principalmente, um sinal para o futuro. Vendo e ouvindo aquela festa, a gente fica mais feliz com o Brasil, um país que será maravilhoso quando todos puderem cantar e dançar como cantam e dançam os que participam do Frevança, uma promoção que nos transforma em pessoas saudáveis.”

Em 1982 concorreram ao Frevança 1.200 músicas, tendo a finalíssima do quarto festival acontecido na noite de 25 de setembro, no Ginásio de Esportes da Imbiribeira, na presença de um público de mais de 13 mil pessoas, transmissão ao vivo pela Rede Globo para todo o Nordeste e gravação de um disco pela RGE (LP 306.6030) com as doze músicas para o Carnaval de 1983. A partir de 1985, a Fundação de Cultura Cidade do Recife desinteressou-se pelo Frevança que passou a ser promovido, com exclusividade, pela Rede Globo Nordeste até 1988; as doze músicas vencedoras do 10º Frevança integram o LP 402.0064, etiqueta Som Livre, para o Carnaval de 1989.

No âmbito dos salões, dois bailes carnavalescos vieram marcar o calendário do Recife: o Baile Municipal, criado pelo então prefeito Miguel Arraes a partir de 1961, e o Baile da Saudade, realizado pelo autor destas notas, a partir de 1973, por dezesseis anos consecutivos, nos salões do Clube Português do Recife, e com o seu repertório reunido em cinco LPs produzidos pela Fábrica Rozenblit, anteriormente citados.

No ambiente das ruas do Recife, particularmente nos bairros da Boa Vista, Santo Antônio e São José, no período de 1980 a 1983, predominou o Carnaval Participação. Uma bem montada campanha publicitária, com o título Viva o Recife, veio divulgar por rede de rádio e televisão o carnaval pernambucano nas principais cidades brasileiras. O frevo-canção de Zezinho Franco e Sérgio Andrade Viva o Recife, que servia de fundo musical à campanha, gravado inicialmente pela Banda de Pau e Corda e, no ano seguinte, pelo cantor Claudionor Germano, em “O Bom do Carnaval” (LP nº 107.0317-RCA), andava na boca de todo folião:

O Recife acordou

Deu bom dia e encontrou

Todo povo nas ruas

Nas pontes, nas praças, se amando

Se encontrando com alegria

Num eterno gingado,

De frevo, ciranda e baião

Batida de coco, maracujá e limão

Vem, vem, vem fazer parte deste cordão

O Recife tem um lugar

Pra você dentro do coração.

No programa especialmente confeccionado para o Carnaval de 1983, a Fundação de Cultura Cidade do Recife, como numa prestação de contas da Administração do prefeito Gustavo Krause, faz um sucinto relato de suas atividades nos últimos quatro carnavais:

“Com a realização do Carnaval de 1983, a Fundação de Cultura Cidade do Recife, órgão criado pela Lei Municipal nº 13.535 em abril de 1979, completa quatro anos de atividades em favor da restauração das verdadeiras tradições culturais do povo recifense.

A partir de 1980 a Fundação de Cultura Cidade do Recife resolveu reviver o Carnaval Participação do Recife, calcado nos antecedentes vividos nos anos 50, quando este era consagrado como ‘o melhor carnaval do mundo’. Serviu de lema.”

Entre 1980 e 1983, reinou no Recife o verdadeiro carnaval participação, com suas multidões frevolentas se arrastando no acompanhamento da Frevioca e das agremiações carnavalescas, a partir da segunda-feira da semana pré-carnavalesca e explodindo na manhã do sábado com a saída do Clube de Máscaras O Galo da Madrugada, como a demonstrar aos descrentes e fracos de espírito que a Capital do Frevo não carece de imitações e, muito menos, de importações outras. Os ritmos criados pelo seu povo são o suficiente para a sua animação.

Como diria o poeta Carlos Pena Filho:

Tudo para extinguir em nós o azul ausente

E aprisionar, no azul, as coisas gratas.

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1) COSTA, F. A. Pereira da. Vocabulário pernambucano. Recife: SEC; Departamento de Cultura, 1976.  816 p. (Coleção pernambucana, 1ª fase; v. 2).

2) GÓES, Fred de. O país do carnaval elétrico. São Paulo: Corrupio, 1982. Coleção Baianada, 4.  123 p.

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