Cruz Cabugá, o primeiro embaixador brasileiro

Ele representou seu país nos Estados Unidos e planejou o resgate de Napoleão da ilha de Santa Helena.

Antônio Gonçalves da Cruz há muito projetava mudar-se para a América do Norte. Já tinha até vendido a maior parte dos bens que herdara do pai, junto com a profissão de comerciante e o apelido de “Cabugá”. Inclusive, o belo sobrado onde morava, por dezoito contos de réis. Mas, quando a Revolução irrompeu subitamente no Recife, no dia seis de março de 1817, ele adiou sua partida e assumiu o posto de diretor do Erário, uma espécie de ministro da Fazenda do governo republicano.

Por algum tempo, com ajuda de outros dois comerciantes — Domingos Martins, um dos cinco governadores provisórios, e Gervásio Pires, conselheiro da República —, o Cabugá fez uma série de intervenções na economia local; até embarcar, finalmente, no dia 25 de março, na histórica condição de primeiro embaixador do povo brasileiro junto a uma nação estrangeira, incumbido de missões importantíssimas. Do seu trabalho nos Estados Unidos dependia o futuro do regime democrático que estava se tentando implantar no Brasil, a partir de Pernambuco…

MEDIDAS RADICAIS

O Cabugá era um mulato de quarenta e poucos anos, rico, solteiro, farrista e apreciador dos prazeres da vida. Mas era, também, um grande patriota, detestado pelos portugueses, e um ferrenho defensor das “ideias francesas” — Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Ao voltar de uma viagem à França, em 1797, por exemplo, ele trouxera retratos dos heróis da Revolução de 1789 e os pendurara ostensivamente nas paredes do sobrado onde vivia e onde funcionava a loja maçônica “Pernambuco do Oriente”. E ainda ajudara a fundar mais três clubes secretos em Pernambuco: “Guatimosin”, “Restauração” e “Patriotismo”.

Esta capitania era rica e movimentada, naquele tempo, embora as classes populares vivessem praticamente na miséria. Grande exportadora de açúcar e algodão, ela exercia o papel de centro econômico da região nortista — assim como o Rio de Janeiro era da sulista —, com o Ceará, a Paraíba e o Rio Grande do Norte sob a sua influência. Mas poderia progredir ainda mais se os produtores agrícolas não penassem tanto com os monopólios comerciais, as altas taxas de juros e a enorme carga de tributos cobrada pelo governo do príncipe D. João. E o povo não precisava passar tanta fome.

Com o Cabugá à frente do Erário, a nova administração republicana operou, de fato, uma revolução na economia local. Estabeleceu plena liberdade de comércio com todas as nações estrangeiras. Isentou de taxas os produtos de primeira necessidade como grãos, armas e equipamentos científicos. Democratizou o sistema de concessão de alvarás, através do qual os portugueses mantinham os brasileiros praticamente fora do mundo dos negócios. Revogou os impostos sobre lojinhas, embarcações e canoas, que incidiam sobre os pequenos. E passou a comprar alimentos e revendê-los à população a preço de custo, acabando com o monopólio dos mascates lusos que compravam em grosso, estocavam, esperavam a fome crescer e depois revendiam aos retalheiros, hoje por cinco, amanhã por dez, depois por quinze etc. Entre outras medidas de grande impacto, tomadas em apenas duas semanas.

Então, Gervásio Pires assumiu o Erário e o Cabugá embarcou, finalmente.

MERCANTILISMO

Naquele tempo, os Estados Unidos eram uma espécie de Eldorado dos revolucionários latino-americanos — o único país do continente já livre do colonialismo europeu e o único do mundo onde vigorava uma autêntica democracia. E a primeira missão do embaixador de Pernambuco era tentar conseguir do governo de lá o reconhecimento da nossa república e o favor de advogar por ela, junto à Inglaterra. Em troca, ele ofereceria isenção de impostos para as mercadorias norte-americanas, por vinte anos.

Cabugá, na verdade, não alimentava grandes esperanças de sucesso, pois já fora alertado de que o espírito daquela nação era mercantil — ideais revolucionários eram uma coisa e negócios, outra. Se os brasileiros se libertassem sozinhos, ótimo; seriam saudados como irmãos. Até lá, os estadunidenses, que disputavam com ingleses e franceses o valiosíssimo mercado do Brasil para produtos industrializados, não correriam o risco de prejudicar suas relações com Portugal — que ainda mandava por aqui — por causa de alguns rebeldes iniciantes na política.

Sua segunda missão, porém, de caráter militar, era fundamental para a Revolução.

Em busca de armas, navios e instrutores

Cabugá não encontrou facilidades, com o eficiente Abade Serra, representante de Portugal nos Estados Unidos, fazendo tudo para estorvá-lo. Só conseguiu ser recebido em caráter particular pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Richard Rush. Ainda assim, arrancou a nomeação do seu amigo Charles Ray para a função de cônsul-geral no Recife, ato que deu uma aparência simbólica de reconhecimento à república pernambucana.

Também fez um bom trabalho junto à imprensa. Apenas algumas vozes anônimas — ou seja, o Abade Serra — tentaram negar o valor do movimento pernambucano pelos jornais de lá, dizendo tratar-se de rebeldia de uma região isolada, ao contrário da América Espanhola, que se levantara de norte a sul. Mas outras vozes — ou seja, o Cabugá — responderam que Boston também começara a revolução norte-americana sozinha, com uma população ainda menor que a do Recife. E o próprio Thomas Jefferson, um dos “pais fundadores” dos Estados Unidos, chegou a escrever ao francês Lafayette, herói das revoluções norte-americana e francesa: “Lisboa perdeu uma grande província, e não será de admirar se todo o Brasil se levantar e mandar a família real de volta para Portugal”.

Suas tarefas mais urgentes, entretanto, eram conseguir navios de guerra para proteger os portos de Pernambuco, bloqueados por naus monarquistas, e enviar armas e instrutores para equipar e treinar as tropas pernambucanas. E ele as cumpriu fielmente.

Com ajuda dos seus irmãos maçons e dos sessenta contos de réis que levou consigo, o embaixador comprou dez mil fuzis e os despachou para cá. E ainda convenceu alguns militares franceses, exilados na América do Norte após a derrota de Napoleão em Waterloo, em 1814, a vir adestrar nossos soldados, que lutavam contra os portugueses. Afinal, Portugal era partidário da Santa Aliança, a liga de países europeus que vencera Bonaparte. Portanto, um inimigo comum. Em troca, eles ganhariam uma flotilha, para com ela tentar libertar seu imperador, preso numa ilha no meio do Atlântico.

Mas, enquanto isso, a Revolução era derrotada. Em consequência, as armas embarcadas para cá jamais foram entregues. E os franceses acabaram sendo descobertos e presos, a caminho do Recife.

Cruz Cabugá por sua vez, ficou nos Estados Unidos, tornando-se cônsul-geral brasileiro naquele país após a Independência, em 1822. E permaneceu na carreira diplomática até morrer na Bolívia, em 1833. Hoje, dá nome a uma importante avenida que liga o Recife a Olinda.

Um projeto que poderia…

Naquela época de sonhos e ideais grandiosos, se achava que tudo era possível. Por isso, quatro militares franceses aceitaram a incrível proposta do Cabugá. O Conde de Pontécoulant, o coronel Latapie e os soldados Artong e Raulet vieram treinar os soldados pernambucanos com a promessa de empréstimo de algumas naus, no futuro, para com elas libertarem seu imperador, Napoleão Bonaparte, aprisionado pelos ingleses nos rochedos de Santa Helena. Pontécoulant partiu na frente para fazer o reconhecimento do país, enquanto os outros compravam e embarcavam uma partida de armas. Então, reuniram-se todos em Natal e seguiram para o Recife, mas foram presos ao fazer escala na Paraíba.

…ter interferido no rumo da História

Por sorte, o general português Luís do Rego, então governador de Pernambuco, ficou bem impressionado com eles e permitiu que Pontécoulant e Raoulet fossem viver na vila de Natal, da qual tinham gostado muito. Latapie e Artong, por sua vez, seguiram para Rio de Janeiro. Por sugestão de Rego, foram contar sua história a D. João VI e lhe fazer uma descrição dos Estados Unidos e do modo como os americanos viam o Brasil. E assim acabou essa aventura extraordinária que, se não fosse interrompida, poderia ter tido um final surpreendente.

Um projeto que poderia…

Naquela época de sonhos e ideais grandiosos, se achava que tudo era possível. Por isso, quatro militares franceses aceitaram a incrível proposta do Cabugá. O Conde de Pontécoulant, o coronel Latapie e os soldados Artong e Raulet vieram treinar os soldados pernambucanos com a promessa de empréstimo de algumas naus, no futuro, para com elas libertarem seu imperador, Napoleão Bonaparte, aprisionado pelos ingleses nos rochedos de Santa Helena. Pontécoulant partiu na frente para fazer o reconhecimento do país, enquanto os outros compravam e embarcavam uma partida de armas. Então, reuniram-se todos em Natal e seguiram para o Recife, mas foram presos ao fazer escala na Paraíba.

…ter interferido no rumo da História

Por sorte, o general português Luís do Rego, então governador de Pernambuco, ficou bem impressionado com eles e permitiu que Pontécoulant e Raoulet fossem viver na vila de Natal, da qual tinham gostado muito. Latapie e Artong, por sua vez, seguiram para Rio de Janeiro. Por sugestão de Rego, foram contar sua história a D. João VI e lhe fazer uma descrição dos Estados Unidos e do modo como os americanos viam o Brasil. E assim acabou essa aventura extraordinária que, se não fosse interrompida, poderia ter tido um final surpreendente.

Fonte: Diário de Pernambuco,

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