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Romance do Pavão Misterioso

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Romance do Pavão Misterioso
Romance do Pavão Misterioso

Romance do Pavão Misterioso, de José Camelo de Melo Rezende

A obra Romance do Pavão Misterioso é o maior clássico do cordel. Folheto mais vendido em todos os tempos, foi escrito por José Camelo de Melo Rezende no final dos anos 20. João Melquíades Ferreira da Silva tomou posse da história e a publicou como se fosse dele, antes de Rezende.

A palavra "romance" no título garante tratar-se de uma narrativa feita nos moldes tradicionais: tem 32 páginas, em versos de sete sílabas ou redondilhas maiores, e sua matéria diz respeito a uma aventura de amor e de heroísmo.

O enredo do Romance do Pavão Misterioso é a aventura de um rapaz, chamado Evangelista, que ao contemplar a beleza de Creuza, donzela conservada prisioneira pelo conde (seu pai), sente-se invadido por um forte desejo: tirar a moça do sobrado do conde e tomá-la como mulher. Evangelista foge com Creuza, ajudado por um pavão mecânico.

O fato de ser mantida reclusa no sobrado, em cuja janela só aparece uma vez por ano, corresponde a um malefício imposto à donzela. A Evangelista cabe salvar a vítima da prisão, reinstaurando a ordem.

A beleza proibida da donzela desperta em Evangelista a vontade de possuí-la; a moça passa a objeto do desejo do rapaz, cujas ações visam à satisfação da carência gerada pelo desejo. O sucesso da demanda empreendida pelo apaixonado restabelece o equilíbrio quebrado pela vontade de posse do objeto.

Logo, a libertação da donzela tanto significa a reparação de um malefício (reclusão) como a eliminação de uma carência (desejo amoroso), a vitória cabendo ao herói. Sendo esses elementos a espinha dorsal da história, pode-se considerá-la como um conto maravilhoso.

Como em muitas narrativas populares, no folheto Romance do Pavão Misterioso, o herói vem de um país estrangeiro e sua história transcorre também numa região longínqua daquela do leitor ou ouvinte. O Evangelista do cordel vem da Turquia e sua aventura tem a Grécia como palco.

A construção do espaço decorre de dados culturais e contribui para conferir à personagem das histórias populares um caráter mágico. Vivendo em paragens remotas ou simplesmente desconhecidas do apreciador da história, ou ainda povoadas de perigos e ameaças, o herói reveste-se de uma natureza próxima daquela das criaturas míticas, habitantes de um espaço e de um tempo distantes.

Alguns heróis populares pertencem a camadas sociais elevadas ou adquirem riqueza e poder no decorrer da história; com esses traços diferenciam-se do cotidiano do homem comum que lhes presta admiração. Assim, o Evangelista do Romance do Pavão Misterioso é um rico herdeiro de "um viúvo capitalista".

Nesta obra encontramos nítidas influências das celébres "Mil e Uma Noites".

Simbologia

Qualificado como misterioso, o pavão é uma figura de significados mágicos. Sua presença na titulação não só registra sua participação na aventura, mas adverte quanto aos sentidos míticos do que se narra.

O pavão insere-se numa complexa simbologia. Signo solar, do fogo, da beleza, do poder de transmutação, pela vistosidade de sua plumagem, é também conhecido, mitologicamente, como destruidor de serpentes (seres da obscuridade). Símbolo da paz, da prosperidade, da fertilização, sua morte tem o poder de trazer a chuva. Aparece como montaria em algumas mitologias e na tradição cristã é sinal de imortalidade. Como representação da dualidade psíquica do homem, o pavão conota as forças positivas, por todos os conteúdos que lhe são atribuídos.

Fonte: Passeiweb

O Cantor da Borborema e o Pavão Mysterioso



 



JOÃO MELCHÍADES FERREIRA O Cantor da Borborema, nasceu em Bananeiras-PB aos 07 de setembro de 1869 e faleceu no dia 10 dezembro de 1933. Sentou praça no exército aos 19 anos de idade, ainda na monarquia, sendo promovido a sargento após a Guerra de Canudos, onde combateu. Em 1897 casou-se com Senhorinha Melchíades, com quem teve quatro filhos. Sua filha Santina Melchíades da Silva, prestou excelentes informações sobre o poeta à pesquisadora Ruth Brito Lêmos Terra, autora do livro "Memória de Lutas: Literatura de Folhetos do Nordeste 1983-1930. Nesta obra, a autora publicou a íntegra de uma correspondência dirigida por João Melchíades à sua esposa, em 1914, onde o poeta fala da primeira edição de CAZUZA SÁTIRO, "que sairia com 66 páginas, maior que o de ESMERALDINA E OTACIANA". O poeta informa ainda o custo de impressão e o preço de revenda dos folhetos, o que torna a correspondência uma verdadeira preciosidade.

De uns tempos para cá, afirmam os pesquisadores mais autorizados que o Pavão publicado por João Melchíades era na verdade um "plágio" ou "recriação" de obra criada por José Camelo de Melo. Aterrizando esse Pavão voador e dissipando todo o mistério que o envolve, é bom que se esclareça a verdade: o pavão de alumínio, pilotado sorrateiramente pelo cantador Romano Elias, fugiu em noite silenciosa da oficina de seu criador JOSÉ CAMELO DE MELO (nascido na povoação de Pilõezinhos, município de Guarabira-PB e falecido em Rio Tinto-PB, aos 28 de outubro de 1964), um poeta que "cantou, mas não teve sorte" como ele próprio afirma no final de um romance de sua autoria - indo parar no "hangar" de Melchíades. Camelo já havia composto a história do Pavão mas não a havia publicado, limitando-se apenas a cantá-la em suas apresentações.

Melchíades, de posse de uma cópia do poema e aproveitando-se da ausência de Camelo, reescreveu o tema e o publicou. Uma versão deste episódio, atribuída ao poeta Joaquim Batista de Sena, (admirador da obra de Camelo e seu amigo pessoal), dá conta de que na época em que o "Pavão" foi publicado, José Camelo teve que deixar a Paraíba para refugiar-se no interior do Rio Grande do Norte devido uma situação complicada. José Camelo de Melo era, além de grande poeta, um exímio xilógrafo, dado que vem a ser confirmado por Átila de Almeida e José Alves Sobrinho em seu Dicionário Biobibliográfico dos Repentistas e Poetas de Bancada. Como tal, teve seu trabalho de xilógrafo requisitado por donos de alambiques para falsificar selos e burlar a fiscalização da Fazenda paraibana. A atividade ilícita veio a ser descoberta e José Camelo fugiu de seu estado natal temendo ser preso. Teria sido justamente nesse período que o cantador Romano Elias, de posse de uma cópia do poema, o teria apresentado a João Melchíades que reescreveria o tema e o publicaria em seguida.

É inadmissível a afirmativa de que João Melchíades teria simplesmente usurpado a autoria da obra. No mínimo, ele reescreveu a história do Pavão, fazendo sensíveis modificações em sua estrutura, o que achamos mais provável, haja visto um depoimento de Maria de Jesus Silva Diniz, filha de José Bernardo da Silva, onde a mesma assegura que o Pavão de José Camelo teria 40 páginas, enquanto a versão de Melchíades, que chegou ao nosso conhecimento e que ela publicava em sua tipografia, tem apenas 32 páginas, tratando-se evidentemente de uma versão mais resumida. O poeta Expedito Sebastião da Silva, chefe gráfico da Lira Nordestina, ainda teria mais um dado a acrescentar. Segundo ele, José Camelo de Melo ficou revoltado porque o público tinha larga preferência pela versão de Melchíades o que o levou a destruir os seus originais. Detalhe, na versão de José Camelo de Melo, publicada após a de Melchíades, Evangelista, o personagem central da trama, destrói o Pavão Misterioso a pedido do engenheiro Edmundo, inventor do aeroplano.

A RELEITURA DO PAVÃO - Em 1992, encontrei o já consagrado cartunista/ilustrador JÔ OLIVEIRA no Salão Nacional de Humor de Campina Grande-PB e ele me mostrou, empolgado, as primeiras pranchas do Pavão Misterioso, com texto em prosa e um formato que mais lembrava um álbum de HQ. Posteriormente, ele utilizou o tema para desenvolver selos para os Correios. O Pavão voou os quatro cantos do mundo no traço de Jô Oliveira, e acabou ganhando três edições com texto em prosa. Início de 2007, reencontrei o Jô por acaso e ele me falou do seu desejo de recontar a história do PAVÃO em cordel, com linguagem mais atual, mais apropriada para o público infanto-juvenil, colocando alguns personagens no Nordeste (no caso os irmãos João Batista e Evangelista, o cavalo Ventania e o cachorro Corisco, estes últimos criação sua, que não aparecem na antiga versão de Melchíades/Camelo). Topei o desafio e fiz uma síntese da trama em sextilhas, apresentando novos personagens e fazendo ajustes necessários para o público de hoje (a versão primitiva é de 1926). O resultado ficou satisfatório e a prova disso é que antigos fãs do folheto de cordel ficaram encantados com o novo formato. É gratificante, também, notar o interesse de pedagogos e arte-educadores, que pretendem adotá-lo como paradidático em 2008. A edição do mesmo ficou a cargo da editora cearense IMEPH, que se lança no mercado com uma coleção de 20 títulos, a maioria utilizando a linguagem do Cordel. A parceria com Jô Oliveira irá render novos frutos... Estamos desenvolvendo, de uma só tacada, os seguintes livros: A AMBIÇÃO DE MACBETH, O BICHO FOLHARAL, ARTIMANHAS DE JOÃO GRILO, e EL CID, todos em cordel, para as editoras IMEPH, CONHECIMENTO e CORTEZ.

Arievaldo Viana. Poeta popular, radialista e publicitário, nasceu em Fazenda Ouro Preto, Quixeramobim-CE, aos 18 de setembro de 1967. Desde criança exercita sua verve poética, mas só começou a publicar seus folhetos em 1989, quando lançou, juntamente com o poeta Pedro Paulo Paulino, a Coleção Cancão de Fogo. Em 2000, foi eleito membro da ABLC. É o criador do Projeto ACORDA CORDEL na Sala de Aula, que utiliza a poesia popular na alfabetização de jovens e adultos.

Autor: Arievaldo Viana



Fonte: Queima-Bucha

90 anos do Romance do Pavão Misterioso

2013 marca os 90 anos do maior êxito da literatura de cordel brasileira: o Romance do Pavão Misterioso, de autoria de José de Camelo de Melo Resende. A data passaria em branco não fosse o empenho do pesquisador e apologista José Paulo Ribeiro, de Guarabira (PB), e do professor e historiador Vicente Barbosa, idealizador da 1ª Exposição de Cordel de Guarabira. Este texto conta um pouco dessa história começada pelos idos de 1923 (Marco Haurélio).

Por Vicente Barbosa

Preservar e divulgar as riquezas das tradições populares configura-se em um sentimento que deve ser exaltado por cada povo, como forma de garantir a sobrevivência e a plenitude de sua própria identidade. O Nordeste brasileiro é destaque quando se trata do tema Cultura Popular e suas diversas formas de manifestações, dentre elas destacamos a Literatura de Cordel.

Essa forma de narrativa oriunda da Península Ibérica, que aqui chegou pelas mãos dos colonizadores portugueses, ganhou alma e corporificou-se através dos Folhetos de Cordel, que, viajando de mão em mão, espalhou-se por toda Região Nordeste levando em seu conteúdo os mais variados e múltiplos temas como: o amor, o ódio, a vingança, a tragédia, a religiosidade, o cangaço, as crenças e seus mistérios.

Dentre todos os Cordéis até hoje impressos, um deles teve destaque, e tornou-se um grande best-seller do gênero. Trata-se do Romance do Pavão Misterioso, obra do cordelista guarabirense José Camelo de Melo Rezende (1885-1964) que ganhou fama no Brasil e no mundo. O Romance do Pavão Misterioso já foi adaptado para o teatro, cinema, literatura, música e televisão, com seu texto simples, aliado à fluência dos versos e às referências aos contos das Mil e Uma Noites alcançou a espantosa tiragem de mais de dez milhões de cópias, vendidas em todo o País.

Neste ano de 2013 a obra completa exatos 90 anos desde a sua primeira edição, datada de 1923. Aproveitando o ensejo e reconhecendo a importância histórica da data, o Serviço Social do Comércio - SESC, na Paraíba, presta uma justa homenagem através da realização da 1ª Exposição de Cordel de Guarabira, uma vez que esta cidade detém o orgulho de ser berço de nascimento do ator e da obra.

Parabéns ao Pavão Misterioso, glória e honra de nossa Literatura popular.

Versão em quadrinhos desenhados por Sérgio Lima.

Para celebrar a data, o poeta Paulo Gracino, natural de Guarabira, escreveu o poema 90 anos de encantos de um Pavão Misterioso, do qual reproduzo as primeiras estrofes (Marco Haurélio):

Quem é que nunca ouviu

Um dia alguém contar

A história de um pavão,

Que começou a voar

Há mais de noventa anos

E que nem pensa em parar.

Ele é misterioso,

Mas nunca foi encantado.

Passeou no mundo todo

E sempre foi bem lembrado,

Por tudo que fez e faz

E por onde tem passado.

Ele é o grande astro

De um romance acontecido.

Um romance de verdade,

Daqueles bem aguerrido,

Que já tem quase cem anos,

E jamais foi esquecido.

Fonte: Vermelho - 07/06/2013

 

ROMANCE DO PAVÃO MISTERIOSO

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