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Maria Bethânia

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Maria Bethânia, cantora
Maria Bethânia

No dia 18 de Junho de 1946, numa terça-feira, às 16:40 horas, na Rua Conselheiro Saraiva, número 39, antiga Rua Direita, em Santo Amaro da Purificação - Bahia, nascia mais um filho de Dona Claudionor Vianna Telles Velloso (Dona Canô) e Senhor José Telles Velloso (Sr. Zezinho ou Zeca), desta vez uma menina, cujo nome foi escolhido pelo irmão Caetano Emanuel, que nesta época tinha quatro anos de idade. O nome não poderia ser ao mesmo tempo tão sonoro, belo e forte quanto é: Maria Bethânia. Essa Estrela-Guia, Deus nos presenteou para dar alegria, felicidade e amor, muito amor, para em qualquer momento que a ouçamos cantar ou falar nos transportemos para um mundo de paz, esperança e onde saibamos acima de tudo respeitar o próximo e amá-lo em plenitude, enfim, um mundo mágico onde só é possível chegar através do amor sublime.

Mas, a escolha do nome não foi assim tão fácil, vejamos: Conta-se uma história verídica do século passado, sobre uma determinada criança que já nasceu consagrada, numa pequena cidade do interior da nossa tão bela, querida e amada Bahia...

Na casa dos Vianna Telles Velloso tudo transcorria normalmente. As tardes continuavam a ser decoradas pela figura imponente do rádio, que tinha naquela família um ardoroso fã de quatro anos de idade: o menino Caetano. Era pensando especialmente em seu encantamento que seguindo um ritual, o botão do aparelho era acionado para vislumbrar um mundo vasto e poderoso aos  sentidos aguçados do garoto.

Caetano tinha mais quatro irmãos, eram três meninas (Eunice, Clara e Mabel) e dois meninos (Rodrigo e Roberto). Dona Canô estava em vias do sétimo filho. Foi talvez por causa de suas incansáveis audições de rádio, que Caetano apareceu um dia com mais uma idéia maluca na cabeça: disse que a criança que mãe Canô esperava seria menina e se chamaria Maria Betânia (na letra da música o Betânia é sem h).

Evidentemente que aquilo não passou de uma tolice aos ouvidos de Dona Canô e Sr. Zezinho. Sabiam que Maria Betânia era nome de uma música muito famosa, de autoria de Capiba e interpretada por Nelson Gonçalves, que a gravou em 1945. E batizar um filho com nome de uma música, era a última coisa que lhes passava pela cabeça.

A 18 de junho de 1946, eles eram pais de mais uma menina, conforme previsão de Caetano. E como tirar da cabeça de Caetano a absurda idéia de colocar nome de "Betânia" na criança? Havia outras sugestões de nome como Gisleine e Maria de diversos complementos, porém D. Canô não tinha preferência, pois como toda mãe o desejo maior é de que a criança seja saudável.

Sr. Zezinho pegou um boné que pertencia a Caetano. Reuniu a família e pediu a todos que escolhessem um nome. Democraticamente numa espécie de plebiscito os nomes foram escritos num papel, embrulhados e colocados dentro do boné. Um aviso geral, principalmente dado a Caetano: o nome escolhido através do sorteio, não poderia ser contestado. Depois do boné ser bem agitado para embaralhar os rolinhos de papel, Sr. Zezinho o dirigiu a Caetano que fechou os olhos e fez a escolha. Pronto! A criança estava quase batizada. Seu nome? MARIA BETÂNIA é claro! E como nos disse a Rainha: O velho, muito católico, lembrou-se do personagem bíblico que um dia auxiliou Jesus na dor e botou como na Bíblia que lia: com th e o circunflexo. Acho que o h no meio é que dá o charme. Bahia também tem, né? (Rev. Guitarra & Violão MPB, 1980, mod.)

Maria Bethânia foi batizada na Igreja Nossa Senhora da Penha, em Salvador, pela irmã Clara e por Eduardo Mamede, hoje falecido.

Maria Bethânia desde criança dizia a Dona Canô: Eu vou ser artista minha mãe. Tinha como sonho subir no palco como atriz. Não estava nos seus planos fazer do canto a sua profissão. Em casa, porém, o irmão Caetano já brincava de fazer música. Em sua cidade natal Bethânia cursou na Escola Nossa Senhora dos Humildes as séries iniciais do ensino fundamental dando prosseguimento no Colégio Teodoro Sampaio e em 1960, a família saiu de Santo Amaro vindo morar em Salvador e Bethânia e Caetano passaram a estudar no Colégio Severino Vieira, localizado no bairro de Nazaré. Dona Canô nos conta que naquela época, Bethânia sentava na janela e começava a cantar.

Quando Caetano foi convidado pelo amigo Álvaro Guimarães, Alvinho, para musicar a peça Boca de Ouro de Nélson Rodrigues, montada em 1963. Pela primeira vez Bethânia subiu no palco para cantar em público. E foi com um samba de Ataulfo Alves que ela abriu o espetáculo. Bethânia nos conta que cantou a música: Cadência do Samba. Eu cantava "off" (atrás da cortina). Mas, fiz até roupa nova pra cantar. Curti tanto... Fiquei louca. Eu devia ter uns treze anos. Antes o que Bethânia conhecia de música era Nora Ney, Aracy de Almeida, Silvio Caldas, Orlando Silva e Maysa.

Neste mesmo ano, em 63, Bethânia e Caetano conheceram Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Djalma Corrêa, Pitti, Alcivando Luz, Fernando Lona e passaram a cantar e a trabalhar juntos, já  com João Gilberto e a bossa nova interferindo e modificando as suas vidas.

Em junho de 1964, o grupo foi convidado para apresentar um show de música popular na semana de inauguração do Teatro Vila Velha, em Salvador. E surgiu o show Nós Por Exemplo. O segundo espetáculo montado pelo grupo se chamou Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova. Ainda em 64, novo show: Mora na Filosofia. Dessa vez só com Maria Bethânia em cena, lançada oficialmente cantora por Caetano Veloso. Nesse show, Bethânia é vista e aplaudida pela então musa da bossa nova, Nara Leão.

No início de 65 arrumou as malas às pressas e acompanhada pelo irmão Caetano veio para o Rio de Janeiro, atendendo a um convite de Nara Leão para substituí-la na peça Opinião (participação de Zé Kéti e João do Vale, direção musical de Dory Caymmi e direção de Augusto Boal). Nessa época Nara não conhecia Bethânia pessoalmente, mas aceitou a sugestão do Roberto Santana e do Grupo Teatro dos Novos, após ter ouvido uma fita de um show em que Bethânia participara e ficou interessada pela voz da mesma. E pelo fato da atriz Nilda Spencer fazer parte do grupo de Teatro dos Novos, ficou encarregada de transmitir o convite a Bethânia. Bethânia estreou no dia 13 de fevereiro. Começou cantando manso, mas em Carcará sua voz explodiu marcando seu primeiro sucesso nacional e popular. A música de João do Vale marcou sua estréia em disco (LP Maria Bethânia lançado pela RCA em 1965) Bethânia assumia uma imagem de cantora de protesto, imagem essa forçada pela proposta e, sobretudo pelo sucesso do show Opinião. Ao sentir que o sucesso poderia desviar o curso de seu trabalho, antes mesmo de ter feito a sua opção profissional, Bethânia arrumou as malas de volta a Salvador.

Disposta a prosseguir cantando, retornou ao Rio de Janeiro em 1966. Pouco depois assinou contrato com a TV Record por seis meses e dirigida por Augusto Boal participou ao lado de Gal, Gil, Caetano, Pitti e Tom Zé do show Arena Canta Bahia no Teatro de Arena. Ainda no ano de 66 e mais uma vez dirigidos por Augusto Boal, os baianos fizeram o show Tempo de Guerra no mesmo Teatro de Arena.

Maria Bethânia, Vinicius de Moraes e Gilberto Gil no mês de setembro apresentaram no Teatro Opinião o show Pois É, roteiro de Capinam, Torquato Neto e Caetano Veloso, direção musical de Francis Hime e direção geral de Nélson Xavier. E no mês seguinte, outubro de 66, Maria Bethânia enfrentava o público do Maracanãzinho defendendo a música Beira Mar de Caetano Veloso e Gilberto Gil, não incluída entre as finalistas do I Festival Internacional da Canção. Em 1967, Bethânia aceitou o convite de Edu Lobo para gravar o disco Edu Lobo e Maria Bethânia, lançado pela Elenco. Nesse disco, pela voz de Bethânia está o samba Só Me Fez Bem, o primeiro da parceria Edu lobo e Vinícius de Moraes.

Sua força no palco marcaria as sucessivas apresentações de Maria Bethânia em boates e teatros do Rio e São Paulo até 1970. Entre elas se destacam: Recital Boite Cangaceiro (Rio), Recital Boite Barroco (Rio), Yes, Nós Temos Maria Bethânia (Teatro de Bolso, Rio), Comigo Me Desavim (o primeiro show dirigido por Fauzi Arap, Teatro Miguel Lemos, Rio), Recital Na Boite Blow Up (SP), Brasileiro Profissão Esperança (direção de Bibi Ferreira com Ítalo Rossi, Teatro Casa Grande, Rio)

Em 1968 ela participou do LP Veloso, Gil e Bethânia lançado pela RCA. Caetano e Gil e Bethânia dividiam o lado A do disco cantando uma faixa cada um. Do lado B somente músicas de Noel Rosa interpretadas por Maria Bethânia.

Ainda em 1968, contratada pela Odeon,Bethânia lançou o LP Recital Na Boite Barroco. Em 1969 e 1970, respectivamente, Bethânia lançou os LPs Maria Bethânia e Maria Bethânia Ao Vivo.

Em 1971, dois acontecimentos marcaram o início de uma nova fase na carreira de Maria Bethânia. Em janeiro ela gravou em estúdio, o LP A Tua Prescença, seu primeiro disco lançado pelo selo Philips e também o primeiro a receber generosos e unânimes elogios da crítica por sua qualidade técnica e artística. Em julho, dirigida por Fauzi Arap, acompanhada pelo Terra Trio, Bethânia estreava, no Teatro da Praia (Rio de Janeiro), o show Rosa Dos Ventos. Um espetáculo diferente que dava a Bethânia a possibilidade de mostrar sua versatilidade no palco, atuando com atriz e intérprete dos mais variados gêneros de música popular, de bolero ao baião, passando pelo frevo, tango, samba, música jovem ou inspirada nos temas de candomblé.

Do show Rosa dos Ventos, resultou o disco do mesmo nome, lançado em setembro de 71, pela Philips, com produção de Roberto Menescal. Ainda em 1971, ela fez sua primeira viagem internacional, apresentando seus maiores sucessos no MIDEM.

No ano seguinte, ao lado de Chico Buarque e Nara Leão, Maria Bethânia participou do filme Quando O Carnaval Chegar, dirigido por Cacá Diegues. A trilha sonora do filme foi lançado em agosto de 1972 pela Philips.

Em novembro do mesmo ano chegava às lojas o disco Drama - Anjo Exterminado, produzido por Caetano Veloso. Bethânia apresenta-se no exterior (Itália, Alemanha, Áustria, Dinamarca e Noruega).

Em 1973, Antônio Bivar e Isabel Câmara assinam a direção do show Drama, Luz da Noite. Mais uma vez Bethânia lotou o Teatro da Praia. O show está registrado no disco Luz da Noite lançado em dezembro do mesmo ano.

Em 1974, Bethânia e Fauzi Arap se reencontram para montar o show A Cena Muda. Com esse show Bethânia comemorou 10 anos de carreira. E foi justamente em cima do tema sucesso que ela e Fauzi traçaram o roteiro musical. O disco A Cena Muda foi gravado ao vivo no Teatro Casa Grande e lançado em novembro do mesmo de 1974.

Chico Buarque e Maria Bethânia despontaram o cenário musical brasileiro praticamente na mesma época. Entretanto nunca tinham pisado juntos num mesmo palco. Esse memorável encontro aconteceu no dia 6 de junho de 1975, idealizado por Caetano Veloso, Rui Guerra e Oswaldo Loureiro. Desse encontro surgiu o LP Chico Buarque e Maria Bethânia gravado ao vivo no Canecão, lançado pouco depois da estréia, reunindo os melhores momentos do show.

No início de 1976, Bethânia entrou mais uma vez em estúdio. Dessa vez para gravar o LP Pássaro Proibido, marco de sua carreira. Além do primeiro disco de ouro recebido pela vendagem deste lp, Maria Bethânia, através da música Olhos Nos Olhos de Chico Buarque, deixou de ser uma cantora executada somente nas rádios FM para ocupar os primeiros lugares das emissoras AM e ser definitivamente consagrada como uma cantora popular.

Em julho de 1976 se realizou um encontro histórico: após 10 anos de carreiras individualmente vitoriosas Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa assumiram a identidade de um novo grupo Os Doces Bárbaros. A estréia nacional ocorreu no dia 24 de junho no Anhembi, de São Paulo.

Toda a efervescente trajetória de Os Doces Bárbaros foi captada pelo diretor Jom Tob Azulay e transformada num divertido, controvertido e satírico longa metragem musical. O registro em disco está num álbum duplo lançado pela Philips em novembro de 1976.

No dia 13 de janeiro de 1977, estreava no Teatro da Praia, Pássaro da Manhã, um show leve, menos tenso que os anteriores, dirigido por Fauzi Arap e cenários de Flávio Império. O show ficou registrado num belo LP do mesmo nome. Trata-se de um registro de estúdio e não de um disco ao vivo. Com este lp, Maria Bethânia recebeu o segundo disco de ouro da sua carreira.

Em maio de 1978, Caetano e Bethânia subiram no palco do teatro Santo Antônio. O espetáculo, roteiro de Caetano e Bethânia com sua direção geral, está registrado no LP Maria Bethânia e Caetano Veloso Ao Vivo, gravado na Bahia e no Rio de Janeiro, (Canecão).

Pouco antes do natal de 1978 foi lançado o LP Alibi que pela vendagem antecipada já chegava às lojas como disco de ouro. Todo esse sucesso foi mostrado ao vivo. Dirigida por Fauzi Arapi e cenário de Flávio Império, Maria Bethânia estreou no Teatro Cine Show Madureira (24 - 29 de julho).

No mês de dezembro de 1979 aconteceu o lançamento do disco Mel. A década de 70 encerraria para Maria Bethânia de um modo particularmente especial. Ela foi a única cantora convidada para participar do especial de fim de ano de Roberto Carlos, produzido pela Rede Globo. Em janeiro de 1980, Bethânia pisava no palco do Canecão com o show Mel, dirigida por Wally Salomão.

Em 1980 a década é aberta com LP Talismã, outro sucesso de vendas e que manteria a sua consagração junto ao grande público e crítica.

Em 1981 volta ao Teatro da Praia, 10 anos depois de Rosa Dos Ventos, para estrear o espetáculo Estranha Forma de Vida novamente dirigida por Fauzi Arap e com cenário de Flávio Império. São apresentados 54 números - entre músicas e textos - que compõem o roteiro. No mesmo ano sai o disco Alteza.

Em 1982, volta ao Canecão (Rio) dirigida por Bibi Ferreira no show Nossos Momentos, uma colagem de seus shows anteriores entremeados de canções novas, algumas compostas especialmente para o show. O disco homônimo sai a seguir.

Em 1983, desgastada com a superexposição alcançada pelo grande sucesso e as super vendas de seus discos e a conseqüente pressão das gravadoras, volta ao disco com Ciclo. Nele ouvem-se canções acústicas e letras sofisticadas, quebrando regras que pareciam permanentes em sua discografia. Aclamado pela crítica e recebido com estranhamento pelo grande público, liberta a cantora de compromissos e a traz de volta à liberdade que sempre a caracterizou na elaboração de seu trabalho.

Em dezembro deste ano, Sr. Zezinho se despede desta vida e Bethânia sofre muito com a separação daquele que fora sempre um exemplo, um amigo e como tal lhe disse e participou de tantas coisas boas e importantes na sua vida, dentre elas citamos a resposta que deu a Bethânia quando em 1965, após o sucesso de Carcará, ela lhe disse que havia decidido ser cantora e pediu-lhe a bênção, pois ficaria no Rio de Janeiro: "Se você for feliz, você é responsável. Se for infeliz, eu sou o culpado". Palavras de Bethânia comentando a resposta recebida: Foi sua resposta. Uma coisa muito bonita. Nunca esquecerei.

No ano de 1984 estréia no Canecão (Rio) o show A Hora da Estrela dirigido por Naum Alves de Souza baseado na obra de Clarice Lispector, um projeto ambicioso com linguagem teatral com música. O repertório trazia canções de Chico Buarque e Caetano Veloso feitas especialmente para o espetáculo. A seguir é lançado o disco A Beira e o Mar. Pouco divulgado pela gravadora, passaria desapercebido não fosse o repertório impecável que misturava algumas canções do show A Hora da Estrela com canções inéditas e regravações. Neste disco encontra-se a gravação antológica da canção Na Primeira Manhã de Alceu Valença.

Em 1985 estréia no Canecão o espetáculo 20 Anos, novamente uma colagem de espetáculos anteriores, dirigido por Bibi Ferreira.

Em 1986 Bethânia assina contrato com a RCA para a gravação de 3 discos, o primeiro é Dezembros, disco com canções inéditas de Tom Jobim, Chico Buarque e Caetano Veloso, e uma feita especialmente para ela por Milton Nascimento chamada Canções e Momentos escrita em homenagem à comovente interpretação da canção A Primeira Manhã feito por ela.

Em 1988 sai o disco Maria com participações especiais de Jeanne Moreau e Gal Costa. Na capa uma negra em vez de uma foto da cantora "Simbolizando todas as Marias do mundo".Estréia no Scala (Rio de Janeiro) o show MARIA dirigido por Fauzi Arap.

No ano de 1989 é lançado o disco Memória da Pele com canções de Djavan, Chico Buarque entre outros. No Scala (Rio) é apresentado o espetáculo Dadaya - As 7 Moradas, dirigido por Ulysses Cruz feito para ser apresentado no exterior.

Em 1990, os 25 Anos de carreira é celebrado com disco 25 Anos - Canto do Pajé e o show 25 Anos. O disco traz participações especiais de Nina Simone, Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti, João Gilberto entre outros. O show dirigido por José Possi Netto estréia no Imperator (Rio) e trazia textos de Fausto Fawcett e uma interpretação comovente de Explode Coração à capela.

O disco Olho D´Água é lançado em 1982. Sem o apoio da gravadora, mais uma vez o trabalho passa quase desapercebido, a não ser pela inclusão da canção Além da Última Estrela em uma novela de televisão.

O ano de 1993 traz de volta a recordista de vendas do tempo do disco Álibi. O disco As Canções Que Você Fez Pra Mim com músicas de Roberto e Erasmo Carlos é um estrondoso sucesso de público e crítica ultrapassando todos os limites de venda daquele ano. O show homônimo dirigido por Gabriel Villela no Canecão (Rio), traz de volta em termos de números e prestígio a consagração da cantora.

Novamente um rompimento com a gravadora para manter a qualidade inabalável e despreocupada com números de sua carreira. Assina contrato com a gravadora EMI Odeon e lança o disco Âmbar com canções de novos compositores como Chico César, Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhoto. O show homônimo dirigido por Fauzi Arap traz os poemas de Fernando Pessoa declamados por ela entremeados de canções inéditas e outras conhecidas do público.

Em 1997 sai o registro do show Âmbar em um cd duplo intitulado Imitação da Vida, gravado ao vivo em dezembro de 1996, no Palace São Paulo.

Em 1999 estoura nas paradas de sucesso a música Brincar de Viver, do cd homônimo lançado pela Polygram e traz outras pérolas como Teresinha, Começaria Tudo Outra Vez, Rosa dos Ventos e Fé Cega, faca Amolada do original Doces Bárbaros. Neste mesmo ano lança A Força que Nunca Seca onde Bethânia mistura o jeitinho do Trenzinho Caipira com É o Amor de Zezé de Camargo quando foi severamente criticada, mas o público aplaudiu, além de todo o romantismo de Eu Queria que Você Viesse e A Força que Nunca Seca de Chico César e Vanessa da Mata e que ela dedica à memória de Mãe Cleusa do Gantois.

Em seguida o show A Força que Nunca Seca é lançado num cd duplo: Diamante Verdadeiro, gravado ao vivo, uma verdadeira obra de arte onde ela faz um passeio no tempo rememorando Carcará, Drama e Mel, tudo isso mesclado com preciosos poemas tão lindamente recitados.

Em 2001 lança o cd Maricotinha, último trabalho pela BMG que traz músicas de compositores já consagrados como Gilberto Gil e Dorival Caymmi, mas traz também músicas de jovens compositores como O Canto de Dona Sinhá de autoria de Vanessa da Mata e que ela canta com Caetano, Nem Sol, Nem Lua, Nem Eu de Lenine e Dudu Falcão e a belíssima composição de Ana Carolina e Totonho Villeroy Pra Rua me Levar. Trata-se de um trabalho rico e emocionante como tudo que Bethânia faz.

E, pela Biscoito Fino grava Maricotinha ao Vivo, cd duplo, no Direct Tv Hall, São Paulo, em dezembro de 2001, lançado em 2002. Esse disco vem numa embalagem diferente, linda, finíssima e comemora os 35 anos de carreira desta artista maravilhosa que soube conquistar na sua caminhada tanto a crítica quanto o público que lhe é fiel e como disse Fauzi Arap: o carisma de Bethânia não cabe em palco nenhum. Assim como seu público dia-a-dia tem sempre que trocar as médias platéias pelas maiores. Em 2003 ela lança o seu primeiro DVD - Maricotinha ao Vivo.

Em Cânticos Preces Súplicas à Senhora dos Jardins do Céu lançado em 2003, Bethânia nos presenteia com a sua maneira ímpar de adorar, reverenciar e louvar Nossa Senhora com uma intimidade que lhe é peculiar. Este cd foi lançado em 2000 numa tiragem limitada.

Ainda em 2003,no dia 23 de setembro, Bethânia cria o selo Quitanda, em parceria com Kati Almeida Braga, pelo qual é lançado o CD Brasileirinho, outro nome não poderia ter, pois mais brasileiro que ele só o Hino e Bandeira Nacionais, torna-se uma unanimidade de crítica e público, vencedor do Prêmio Tim de Música como o melhor disco da MPB e Bethânia melhor cantora. Também foi indicado para concorrer no Grammy Latino-2004 nas categorias de Melhor Projeto Engenharia de Gravação e Melhor Álbum de MPB. O DVD Brasileirinho, segundo da carreira, gravado no Canecão, no Rio de Janeiro em abril de 2004 e lançado dia 26 de agosto, também no Canecão, Rio de Janeiro, abrindo uma nova temporada de shows nesta cidade de 26 a 29 de agosto e de 2 a 5 de setembro e dias 25 e 26 deste último mês no Tom Brasil, em São Paulo.

Em 24 fevereiro de 2005, Bethânia lança o cd em homenagem a Vinicius de Moraes, cujo nome é Que Falta Você Me Faz, segundo ela trata-se de uma declaração de amor alucinado por ele. O disco além das músicas do poeta traz também o diferencial de Bethânia, que são os poemas e textos. Associado ao lançamento do cd, Bethânia também comemora os seus 40 anos de carreira, fazendo uma turnê pelo país e exterior com o show Tempo, tempo, tempo, tempo.

Fonte: www.mariabethania.com


Maria Bethânia


Em 1966, ela era a baiana que saiu de Santo Amaro da Purificação e foi ao Rio de Janeiro substituir Nara Leão no show Opinião. Em 2005, comemorava 60 anos de vida e tantas décadas de carreira de braços abertos para o público em Salvador, na mesma Bahia onde nascera e aprendera a cantarolar. "Ela sempre dizia que ia ser artista. Sempre. Mas na escola não deixavam ela cantar no coral, porque achavam a voz dela muito grave", revela dona Canô, a mãe. "E hoje todo mundo gosta dessa voz". Pois é: o mito se constrói em cima de contradições também. E das imagens que resgatam dois instantes específicos da carreira de Maria Bethânia; lançado agora pela Biscoito Fino, um DVD duplo traz Pedrinha de aruanda - Maria Bethânia, documentário de Andrucha Waddington feito em 2006, e Bethânia bem de perto - A propósito de um show, de Eduardo Escorel e Júlio Bressane, registrado em 1966.

As quatro décadas que separam os dois retratos de Maria Bethânia servem para perceber como a tímida baiana dos anos 60, à vontade em casa com oirmão Caetano, a amiga Rosinha de Valença, com sotaque nítido e acentuado e um sorriso cativante, já carregava uma força que extravazava no palco. E já dialogava bem com a câmera, com a perspectiva de se deixar invadir por uma lente que a acompanhava de perto. Escorel e Bressane (o primeiro é um montador e pesquisador famoso, o segundo é um dos mais seminais cineastas brasileiros) optam por permanecer com Bethânia em foco na sala, no camarim, num passeio pelas ruas de um Rio de Janeiro que não existe mais. O preto e branco reafirma um certo tom saudosista, que, no entanto, não contamina o média-metragem.

E a razão é a própria Bethânia e o fato de que, hoje, ela é o mito, ou a entidade, como preferem outros, que é. Naquela época, já era decidida. Reclamava, por exemplo, porque as pessoas só queriam que ela cantasse Carcará. As imagens interessam, têm uma conotação antropológica, fazem o espectador querer saber como era a mulher que, já em Pedrinha de aruanda, é uma confluência de rituais, de estilos musicaisque canta com o mesmo fervor, da herança melódica da mãe, com quem canta ao lado de Caetano, e do desejo de ser "artista" desde garota. O som e os negativos de Bethânia bem de perto foram submetidos a um tratamento que erradicou as impurezas do tempo; o apuro técnico de Pedrinha de aruanda é percebido desde a primeira seqüência, quando ela aparece no camarim, tira as sandálias para entrar no palco onde se apresentará depois e, horas mais tarde, é recebida com entusiamos pelos soteropolitanos ao cantar Gita, de Raul Seixas.

Em 1966, ela é o objeto que Escorel e Bressane cortejam com a câmera; em 2005, ela é quem conduz Andrucha Waddington. A atmosfera de flagrante que havia no primeiro filme desaparece no segundo. A intimidade está lá, sim, mas os rituais de Bethânia não mais parecem indevassáveis. Afinal, nessas quatro décadas, ela se transformou numa grande intérprete, talvez a maior intérprete do país. Pedrinha de aruanda soa menos como o documentário que Andrucha queria fazer e mais como aquilo que Maria Bethânia queria ver na tela. Mas há espaço para momentos de muita ternura, tanto quando ela canta em cima do dedilhado do violonista Jaime Alem (Motriz, por exemplo), como ao comandar um sarau com Caetano, dona Canô, sobrinhos e amigos, lembrando as canções que a eternecem, como Felicidade e Gente humilde.

Fonte: www.pernambuco.com


Maria Bethânia

por Ana Luísa Vieira, Ana Paula Sousa, Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa, Camila Alam e Pedro Alexandre Sanches

Maria Bethânia ressurge em dois momentos de sua carreira, aos 20 e aos 60 anos

Duas pontas distantes da trajetória de Maria Bethânia se entrelaçam em dois documentários editados em DVD duplo pela Quitanda, selo da cantora dentro da gravadora Biscoito Fino. Em Bethânia Bem de Perto, média-metragem dirigido por Julio Bressane e Eduardo Escorel em 1966, ela aparece aos 20 anos de idade, recém-revelada por Nara Leão. Ainda acorrentada ao sucesso instantâneo de Carcará, a certa altura ela observa, com desconsolo, que o público não a aplaude quando canta outra música qualquer que não aquela.

Em Pedrinha de Aruanda, filmado por Andrucha Waddington em 2006 e recém-exibido nos cinemas, faz o caminho de volta e se deixa filmar na cidade natal, Santo Amaro da Purificação (BA), em cenas triangularmente protagonizadas pela mãe hoje centenária, dona Canô, e o irmão, Caetano Veloso, que dirige o automóvel rumo a Santo Amaro.

A curvatura do tempo se faz notável entre a menina de 1966 e a senhora de 2006, como se percebe em especial nas cenas nada polidas de Bethânia Bem de Perto. Ali, a artista aparece como garota sapeca de trejeitos ainda perplexos diante da fama que chega. Essencialmente desbocada, desanca Roberto Carlos ("Eu acho de uma pobreza total", descreve o iê-iê-iê Quero Que Vá Tudo pro Inferno, pouco antes de se converter em fã entusiasmada do colega) e a bossa nova ("O Barquinho eu odeio, não gosto nem de saber que existe, eu não agüento esse tipo de música"). A MPB ainda não existia como sigla, nem era a família comportada de hoje em dia.

Bem mais discreta e compenetrada é a mulher madura radiografada por Pedrinha de Aruanda, em cenas de devoção fervorosa ora à Igreja Católica, ora ao candomblé, ora à música cantada em um sarau interiorano na varanda da casa antiga. Sedutora e impiedosa, dona Canô rouba parte da cena ao cantar em voz aguda e afinada, ao dizer que não sente orgulho da fama dos filhos e ao lembrar que a pequena Bethânia interpretava "até" o Saci Pererê, mas não queria cantar, porque "tinha voz grossa" e "ninguém gostava".

O giro no túnel do tempo termina com o retorno da Bethânia de 60 anos de idade à arena vazia de um circo em Santo Amaro. Ali, lembra que sonhava fugir com a trupe quando menina, volta a cantar os versos tristonhos do sambista baiano Batatinha (todo mundo vai ao circo/ menos eu, menos eu/ como pagar ingresso, se eu não tenho nada?/ fico de fora escutando a gargalhada) e conclui que até hoje "meu ofício de algum modo é isso". E o périplo delicado termina no meio do picadeiro, de volta ao começo. - PAS

Maria Bethânia

Palavras-chave: Nordeste