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Gregório Bezerra (1)

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Gregório Bezerra
Gregório Bezerra

GREGÓRIO BEZERRA

Maria do Carmo Andrade - Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco - pesquisaescolar@fundaj.gov.br

Gregório Bezerra, político, líder comunista e ex-sargento do Exército brasileiro, nasceu no dia 13 de março de 1900, no sítio Mocós, município de Panelas de Miranda, estado de Pernambuco. Filho de camponês paupérrimo e analfabeto, passou muita fome desde o ventre materno, porque sua mãe também passava fome.

Nasceu num ano de grande seca, quando centenas de retirantes morriam pelas estradas afora, em busca de comida e água para beber. Não havia leite, nem materno nem de gado. Seus pais e seus irmãos mais velhos, que haviam perdido a safra anterior, perambulavam nas estradas da caatinga, em busca de trabalho para amenizar a situação crítica da família.

Gregório começou a trabalhar na agricultura, preparando roçados, na idade em que deveria ter ido para a escola. Não teve, portanto, oportunidade de ser alfabetizado.

Em 1917, depois de muitas andanças, já no Recife, trabalhando como ajudante de pedreiro, participou de uma passeata por melhores salários e em solidariedade ao movimento bolchevique na União Soviética. Foi preso, julgado e condenado a sete anos de prisão.

Depois de um novo julgamento foi libertado em 1922. Como para conseguir emprego, precisava do certificado do serviço militar, resolveu entrar para o Exército no Recife. Em 1923, foi transferido para o Rio de Janeiro, onde completou o serviço militar.

Em 1925, decide se alfabetizar para fazer o curso de Sargento de Infantaria. Já segundo-sargento, é designado Instrutor da Companhia de metralhadoras pesadas na Vila Militar, tendo sido também instrutor de esportes. Em seguida, solicitou  transferência para a Sétima Região Militar, no Recife.

Durante o período em que esteve no Exército, depois de alfabetizado, Gregório descobriu o comunismo, ideologia que abraçou durante toda sua vida, porque acreditava que só assim poderia haver uma sociedade mais justa e melhor. Em 1930, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e, em 1935, era um dos líderes do movimento armado, Aliança Nacional Libertadora (ANL). Participou, como militar rebelde, da luta armada que tentou implantar o regime comunista no Brasil. Com a derrota do movimento, foi preso durante três anos, no Recife, e condenado a  28 anos de prisão, pelo Tribunal de Segurança Nacional.

Foi transferido para a Ilha de Fernando de Noronha e posteriormente para o presídio da Ilha Grande no Rio de Janeiro, sendo enviado por fim ao presídio Frei Caneca, onde ficou na mesma cela que  Luiz Carlos Prestes.

Anistiado em 1945, e com a legalização do PCB, Gregório volta a Pernambuco e é eleito Deputado Federal pelo Partido, sendo o segundo mais votado de Pernambuco. Em 1948, o comunismo volta à ilegalidade e Gregório teve seu mandado cassado.

Pouco depois, um incêndio no 15º Regimento de Infantaria do Exército em João Pessoa, Paraíba, é atribuído aos comunistas e Gregório é preso no Rio de Janeiro, conduzido a um presídio na Paraíba, onde permaneceu durante 91 dias, sendo levado depois para o Recife, onde ficou mais dois anos na prisão.

Novo julgamento libertou Gregório, que passou a percorrer várias regiões brasileiras pregando a Reforma Agrária e organizando sindicatos de trabalhadores rurais. Em 1963, participou da organização de uma greve de 200 mil trabalhadores da zona canavieira de Pernambuco.

Em 1964, quando o governador Miguel Arraes é deposto e preso, sai em busca de armas para os camponeses na tentativa de enfrentar o Golpe Militar, mas é preso na Usina Pedrosa, no município de Ribeirão-PE. Conduzido para o Recife, é torturado em praça pública, arrastado pelas ruas do bairro de Casa Forte, com uma corda amarrada ao pescoço.

Incentivado por Paulo Cavalcanti, que estava com ele na mesma prisão, acusados no mesmo processo, Gregório começou a escrever suas memórias. Os manuscritos eram inicialmente entregues a Jurandir Bezerra, filho de Gregório, durante as visitas nos finais de semana. Depois ficaram sob a guarda do próprio Paulo Cavalcanti, que estudava a melhor oportunidade para publicá-los, pois acreditava que seria um "livro de grande interesse social e político, pelo estilo corrente, fácil de ler".

Em 1969, foi libertado juntamente com outros companheiros em troca do embaixador norte-americano, Charles B. Elbrick, que havia sido seqüestrado pela resistência à ditadura militar. Segue para o México e depois para a União Soviética, onde viveu durante dez anos.

Quando Gregório foi exilado do Brasil, ficou sem notícia de seus manuscritos, pensando que tivessem sido apreendidos pelo Exército ou pela Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS). Resolveu, então, reescrever suas memórias, em Moscou, que foram publicadas com sucesso por Ênio Silveira.

Beneficiado pela anistia em 1979, retorna ao Brasil. Deixa o Comitê Central do PCB, por divergências internas, e, em 1982, foi candidato a deputado federal pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) de Pernambuco, ficando apenas como suplente.

Morreu na cidade de São Paulo, no dia 23 de outubro de 1983.

Seu corpo foi velado na Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco, tendo reunindo milhares de pessoas. Do alto de uma galeria da Assembléia Legislativa, uma faixa pintada de vermelho, reproduzia os versos da música cantada por Elis Regina: choram Marias e Clarices no solo do Brasil.

Recife, 3 de novembro de 2005.

(Atualizado em 9 de setembro de 2009).

FONTES CONSULTADAS:

BEZERRA, Gregório. Memórias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. 2v.

CAVALCANTI, Paulo. A luta clandestina: o caso eu conto como o caso foi. Recife: Ed. Guararapes, 1985.

GREGÓRIO BEZERRA. In: Pernambuco de A/Z. Disponível em: <http://www.pe-az.com.br/biografias/gregório_bezerra.htm>. Acesso em: 10 out. 2005.

GREGÓRIO BEZERRA. In: Portal dos Municípios. Disponível em: <http://www.municipios.pe.gov.br/municipio/Gregorio_Bezerra.asp>. Acesso em: 13 out. 2005.


Fonte: ANDRADE, Maria do Carmo. Gregório Bezerra. Pesquisa Escolar On-Line, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://www.fundaj.gov.br>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.

___________

Gregório Bezerra nasceu na cidade de Panelas de Miranda (a 200km de Recife) em 13 de março de 1900, filho de Lourenço Bezerra e Belarmina Conceição. Desde jovem vivenciou problemas brasileiros, especialmente aqueles ligados à seca, que castigava os lavradores pobres da região onde morava. Desde os 4 anos de idade já trabalhava na lavoura e, quando ficou órfão de pai e mãe, aos oito anos de idade, passou a ser escravo doméstico. Fugiu depois de dois anos de maus-tratos. Viu muitos de seus amigos morrerem de fome. Assim como muitos deles, era sem-terra, sem-teto e analfabeto. Comia nos dias em que conseguia trabalho. Entre as várias atividades que exerceu, uma delas foi a de jornaleiro. Embora não soubesse ler os jornais que ele mesmo vendia, seu interesse pela política pôde ser despertado na medida em que conhecia a realidade brasileira de uma forma mais ampla na medida em que os seus colegas liam as notícias de jornais para ele.

Em um pequeno histórico realizado sobre as greves no Brasil, vimos que uma das greves mais marcantes e importantes para a nossa história foi a de 1917. Nesta greve, Gregório Bezerra começa a atuar ativamente, lutando com diversos trabalhadores pela jornada de 8 horas e em favor da Revolução Bolchevique. Neste episódio foi preso, acusado de perturbar ordem pública e cumpriu 5 anos de prisão. No ano de 1922 ele alista-se no Exército e decide se alfabetizar para entrar na Escola de Sargentos. Deixava muitas vezes de comer para pagar seus professores. Já a partir de 1927 passou a ler diversas obras marxistas e no ano de 1929 consegue entrar para a Escola de Sargentos. Gregório Bezerra casa-se neste mesmo ano com Maria da Silva, com a qual teve um casal de filhos. No ano seguinte ele filia-se ao Partido Comunista Brasileiro e passa a proteger militantes perseguidos pelo movimento integralista da época.

Em 1932 Gregório recebeu a missão de comandar um exército de analfabetos e flagelados da seca, que combateu os Paulistas na Revolução Constitucionalista. Participante da Aliança Nacional Libertadora (ANL), sua principal tarefa foi filiar o maior número militares à frente que tinha como principais objetivos libertar o país dos exploradores e da corrupção do governo, através de uma insurreição popular. Gregório obteve sucesso nesta tarefa, além de conseguir centenas de fuzis e munições para a frente. Teve a incumbência, ainda, de deflagrar o movimento revolucionário em Recife. Liderou a tomada do Quartel General e vários pontos importantes da cidade. Com o movimento derrotado, Gregório foi preso, espancado e barbaramente torturado. O mesmo aconteceu com o seu irmão José Lourenço Bezerra, que morreu assassinado, deixando mulher e cinco filhos menores.

Por participar dos eventos ligados à insurreição comunista, Gregório foi condenado a 27 anos de prisão. Em 1942 foi transferido para a Ilha Grande. No ano seguinte, quando passou para o presídio Frei Caneca, conheceu Luís Carlos Prestes. Saiu da prisão em 1945 e participou do comício de Prestes, no estádio Vasco da Gama. Recebeu do PCB a tarefa de reorganizar o partido em Pernambuco. Lá pôde encontrar novamente a sua família. Nas eleições de dezembro do mesmo ano, Gregório é o Deputado Federal mais votado para a Constituinte. Muitas questões que hoje se apresentam como direitos adquiridos ou que ainda vigoram entre as lutas da atualidade, foram defendidas por Gregório Bezerra no período em que atuou na Constituinte. Podemos citar, por exemplo, o direito de greve e a autonomia sindical; direito de votos aos analfabetos e aos militares; denúncia da exploração do trabalho, principalmente infantil; defesa da construção de creches para as mães solteiras e trabalhadoras, assim como sua obrigatoriedade em escolas, postos médicos, favelas e locais de trabalho. Mas todas estas lutas estavam diretamente vinculadas à defesa do socialismo para a solução dos problemas brasileiros. (...)

Fonte: www.brasilcultura.com.br


A briga do bispo com o comunista

O incidente foi registrado pelo Jornal do Commercio no dia 17 de novembro de 1959. Durante banquete na AGA em homenagem a Aluisio Pinto, prefeito, e Álvaro Alves da Rocha, vice-prefeito, o bispo, dom Adelino, recusou-se a participar porque estava presente o líder comunista Gregório Bezerra. O fato criou um incidente entre vereadores, com discussão entre Mauro de Souza Lima e José Cardoso. Foi um constrangimento geral só atenuado quando Gregório Bezerra decidiu abandonar a AGA.

Os tempos mudam. Quando voltou do exílio, em 1979, uma das primeiras pessoas a receber o lider comunista Gregório Bezerra foi dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo.

Fonte: www.jodevalduarte.blogspot.com

GREGÓRIO BEZERRA: O CENTENÁRIO DE UM VALENTE


JORNAL DO COMÉRCIO - Recife, 12.03.2000 - pág. 4 (POLÍTICA) 

Sérgio Augusto Silveira


Há 17 anos morria em São Paulo aquele que, já em vida, passou a ser considerado como um dos maiores heróis populares da política brasileira, Gregório Bezerra. No dia 13 deste mês, Gregório, que morreu aos 83 anos depois de uma vida de militância comunista contra o capitalismo e as ditaduras no País desde os anos 30, completaria 100 anos de nascimento. Este centenário vem sendo comemorado desde o ano passado, quando mereceu uma placa na calçada do monumento Tortura Nunca Mais, no Recife, por iniciativa da Associação Pernambucana de Anistiados Políticos, partidos de esquerda e ex-colegas do PCB, como o ex-vereador Roberto Arrais.

O mito em torno de sua figura, capaz de mobilizar entidades, inspirar escritores e até disputa pela paternidade das comemorações do seu centenário, deve-se ao seu exemplo de firmeza no cumprimento das missões que recebia do PCB, ao enfrentar 20 anos de prisão, as torturas da polícia e do Exército e a discriminação no partido. Gregório organizou e pôs em funcionamento pelo menos uma centena de sindicatos rurais de orientação marxista em quase todos os Estados. Seu exemplo é reconhecido até pelos antigos inimigos ideológicos. Quem o conheceu de perto no corpo a corpo da militância, vê mais uma razão para o carisma: seu discurso coloquial de velho camponês e de imediata comunicação com o povo. Esta foi sua grande arma, temida pelos governos que se sucederam até o regime dos generais, derrubado em 1985.

Integrante do Comitê Central do PCB, ao lado do lendário chefe comunista no País, Luiz Carlos Prestes, Gregório sempre disse que "um revolucionário deve ser, antes de tudo, um audacioso", e deu exemplo disto quando, no Recife, deflagrou o movimento de insurreição planejado pela Aliança Nacional Libertadora para assumir o poder, tomando de assalto o CPOR, do qual era sargento-instrutor. o movimento fracassou, ele ficou preso 10 anos até o final da ditadura Vargas, em 1945, mas o sargento criou fama, principalmente em suas ações para organizar e trazer para o partido os trabalhadores do campo. Com este discurso, Gregório sai, em 1946, candidato a deputado federal constituinte pelo PCB legalizado. É eleito com a maior votação na Região Metropolitana. Os trabalhadores, assim como parte da classe política, têm, até hoje, um juízo dúbio acerca deste líder, ora evitando falar em seu nome devido ao estigma de comunista, ora vendo nele uma espécie de Robin Hood.

Gregório sensibilizou de fato o Recife e o País para o seu nome no momento em que foi vítima de tortura em público, logo após o golpe de 1964, quando, aos 64 anos, foi preso e arrastado por um destacamento militar, acorrentado e espancado nas ruas do bairro de Casa Forte. A cena chocou a cidade. Mas o calvário de Gregório aconteceria também em suas fileiras, já que o Comitê Central do PCB o hospedou, mas nunca reconheceu sua capacidade de decidir e projetar ações políticas, vendo nele um velho camponês experiente, disciplinado, mas simplório, pronto apenas para cumprir tarefas. Nascido no município de Panelas, no Agreste pernambucano, paupérrimo, menino de rua que teve mais tarde só a instrução recebida no Exército e a doutrinação partidária, Gregório não era um intelectual como Prestes. Esta simplicidade o fez ser o preterido até no uso do microfone nos comícios, esquecido por quem se dizia seu aliado, a ponto de ser forçado a assumir uma candidatura errada nas eleições de 1982. Filiado ao PMDB, após acusar o PCB de desvio direitista e sair da legenda, concorreu a deputado federal, obtendo apenas 12.156 votos sendo uma vítima do grande confronto que começava entre Jarbas Vasconcelos e Miguel Arraes. Ambos se desafiavam para ver quem seria mais votado, o nisso concentraram mais de 350 mil votos.

Alto, rosto avermelhado, olhos verdes e fala compassada, Gregório tinha uma forte compleição física, que o ajudou a resistir aos maus tratos. Casado com uma mulher também de origem camponesa, dona Maria, Gregório teve um casal de filhos que não herdaram seu ímpeto político, e ainda tem parentes em sua cidade natal, a exemplo de seu sobrinho João Alves dos Santos, de 80 anos, agricultor. E de sua sobrinha Aurelino Azevedo, que faz questão de orientar seus alunos, no colégio estadual Gregório Bezerra, em Panelas, sobre quem foi o "Homem de ferro e flor", na expressão do poeta maranhense Ferreira Gullar. De ferro mas frustrado em certos momentos, como confessou ao jornalista Geneton Morais Neto, em 1983. "Em 1964, a frustração foi tamanha, pois a massa camponesa estava pronta para agir e repelir o golpe militar terrorista. Mas não tínhamos armas. Ainda tentei buscar armas no Palácio das Princesas. Desgraçadamente, quando cheguei Arraes já estava preso. Voltei de mãos vazias ao campo, para desfazer todo um trabalho de conscientização da massa camponesa para o confronto. Meu problema não foi o sofrimento, mas a frustração". E mais adiante: "Não me arrependo. Tenho plena consciência de que meus atos revolucionários foram justos e oportunos. O que posso ter feito, e aí faço autocrítica, é que sempre fui tarefeiro, não tinha boa formação teórica".

Advogada lembra trajetória de lutas do líder comunista

A estudante concluinte de Direito e professora, Mércia Albuquerque, passava pela praça de Casa Forte, no dia dois de abril, logo após o golpe militar de 1964, justo no momento em que um homem idoso estava sendo arrastado na rua e espancado por um coronel e vários sargentos, sob o olhar horrorizado dos que passavam. "Naquele momento eu decidi que iria defender aquele homem que estava sendo torturado em público. E foi o que fiz", conta Mércia, que se tornou advogada de presos políticos e, em especial, de Gregório Bezerra, com quem aprendeu a dimensão dos problemas políticos e sociais brasileiros. Hoje titular da Ouvidoria da Secretaria de Justiça do Estado, ela sofreu maus tratos e foi jogada no xadrez, mesmo gestante, várias vezes, por defender os inimigos do novo regime.

"Quando eu vi aquela cena, lá em Casa Forte, com o coronel Darcy Villoc Viana (o oficial que comandou a prisão de Gregório) gritando ensandecido e ameaçando o ancião, enquanto soldados muito jovens arrastavam aquele homem cambaleando, eu senti que deveria deixar minha profissão de professora de menores abandonados e passar a fazer algo por aquele homem torturado", lembra a advogada.

Ela localizou Gregório no Parque de Motomecanização, um quartel em Casa Forte. "Ele estava numa cela, com os pés queimados por soda cáustica e a cabeça quebrada. O coronel Villoc disse que eu era uma atrevida. E falou: "Com este ferro eu espanquei seu cliente. O que a senhora acha?". Eu respondi: "O senhor tem a força, mas...". aí ele falou: "Mas o quê?". E eu disse: "Mas mesmo! Posso ir?". E ele falou: "Dane-se!". Para ela, naquele momento o País vivia "uma síndrome de sangue".

Passados 36 anos daquelas cenas, Mércia ainda lembra com emoção, assistindo à movimentação das comemorações dos 100 anos de seu amigo e ex-cliente. "Todos temiam aproximar-se de mim porque eu defendia os presos políticos", revela, fazendo questão de mencionar o então escrivão da Vara de Homicídios, Décio Magalhães que, em 1967, aceitou, com riscos, levar para casa as razões de defesa de Gregório, rascunhadas por ela, para datilografar. Ainda sem experiência profissional, Mércia pedia ajuda dos advogados Rui Antunes e Cláudio César Andrade. Eles iam para uma granja, de madrugada para não serem vistos pela férrea vigilância policial, onde preparavam as petições. Naquele momento, Gregório estava doente da próstata e tinha sido removido para o hospital onde hoje é o Ipsep. Conta que havia policiais com metralhadora apontando para ela até dentro do quarto do paciente. "Eles queriam ficar até dentro da sala de cirurgia, mas o coronel-médico César Montezuma os expulsou. Eu rendo homenagens ao falecido coronel".

Sabe-se que, antes mesmo de ser preso, Gregório esteve escondido durante um dia numa usina, enquanto aconteciam centenas de prisões no Recife e no campo. Passadas três décadas daquela noite, a advogada, que sabe detalhes contados por seu cliente, evita revelar quem foi o usineiro que escondeu o líder comunista. Indagada a respeito, ela limita-se a dizer: "Este usineiro foi um político muito importante no Estado, é vivo e às vezes se fala nele".

Segundo Mércia Albuquerque, a vida de Gregório esteve por um foi também antes de ser entregue ao Exército. Conta que o capitão PM Álvaro Rêgo Barros prendeu Gregório na Usina Pedrosa, em Ribeirão, mas, no caminho, o usineiro José Lopes Siqueira, acompanhado de pistoleiros, exigiu que o oficial lhe entregasse o pistoleiro. Era para trucidá-lo no canavial. O capitão não aceitou. Quase houve tiroteio, mas Rêgo Barros venceu a parada e, como diz Mércia, "ele não sujou as mãos com o sangue da história".

A advogada diz que nunca comungou da mesma ideologia de seu cliente, mas reconhece que "tratava-se de um líder autêntico, que assumiu corajosamente suas posições, ainda que isso tenha sido causa de muitas privações e sofrimentos". Revela que ele sempre foi o remediador nos confrontos entre os presos. Respeitava a todos, independente de facção. E mais, revela Mércia: "As mulheres se apaixonavam por ele. Médicas, advogadas lhe mandavam cartas. Eu recebia e as rasgava. Achava que a mulher dele, Maria da Silva Bezerra (dona Maroca) não podia ser maculada. Um dia Gregório descobriu que eu rasgava as cartas. Continuei rasgando. A esposa dele, uma camponesa maternal, sempre deu todo apoio a ele, criou os filhos Jandira e Jurandir com dignidade. Eu contei a ela sobre as cartas. Hoje eu me arrependo de as ter rasgado".

Mércia conta que, em 1969 na Casa de Detenção, disse a Gregório que ele se preparasse para sair, pois era um dos presos que iam ser trocados pelo embaixador dos Estados Unidos, Burke Elbrick, sequestrado pela guerrilha urbana. Gregório, que já estava com 69 anos, não aceitou ser solto, dizendo que a decisão era do partido. A advogada disse que ele não poderia prejudicar outros presos que estavam na lista. Ele, então, seguiu para o exílio.

CRONOLOGIA

1900 - Nasce Gregório Lourenço Bezerra, no dia 13 de março, no sítio Mocós, município de Panelas, no Agreste pernambucano. Aos quatro anos começa a trabalhar na roça, aos oito fica órfão de pai e mãe e aos 10 vira empregado de senhor de engenho.

1911 - Revolta-se contra os maus tratos e foge para o Recife, onde vira menino de rua. No ano seguinte, começa a trabalhar como gazeteiro.

1916 - Como ajudante de pedreiro começa a participar do sindicato. No ano seguinte, acusado de agitação, é preso na Casa de Detenção do Recife, onde passa quatro anos e oito meses.

1922 - É libertado, enquanto no Rio de Janeiro era fundado o PCB.

1923 - Gregório entra no Exército, no antigo 21º Batalhão de Caçadores. É transferido para a 1ª Cia. de Carros de Assalto, no Rio. Conhece Luiz Carlos Prestes.

1925 - Alfabetiza-se matriculando em curso noturno.

1930 -  Filia-se ao PCB.

1935 - Instrutor de educação física do CPOR, no Recife, o sargento Gregório participa da Aliança Libertadora Nacional (ALN), toma de assalto o quartel do CPOR. O plano fracassa e Gregório é preso.

1945 - Depois de passar pelas prisões de Fernando de Noronha e Ilha Grande, Gregório é libertado no processo de redemocratização e decretação da Anistia. É eleito deputado federal constituinte pelo PCB, o mais votado no Recife e o segundo no Estado.

1946 - Gregório é preparado para ser candidato a prefeito do Recife. Prevendo a vitória comunista, a Câmara dos Deputados aprova intervenção no Recife, Santos, São Paulo e Rio.

1947 - O PC é posto na ilegalidade, Gregório é preso, com outros membros do partido. É solto no Recife, depois de quase dois anos.

1964 - Novamente preso, no dia dois de abril, logo após o golpe militar.

1967 - Gregório é condenado a 19 anos de prisão. É levado para a Casa de Detenção.

1969 - É libertado junto com outros presos políticos em troca do embaixador norte-americano Burke Elbrick. Exila-se inicialmente no México, onde já estava o fundador das Ligas Camponesas, Francisco Julião. Inicia seu exílio em Moscou.

1979 - É decretada a Anistia e Gregório retorna ao Brasil.

1980 - Juntamente com Prestes, Gregório sai do PCB acusando o partido de "desvios direitistas".

1982 - Candidata-se a deputado federal em Pernambuco e é derrotado, obtendo apenas 12.156 votos.

1983 - Cardíaco, tem uma crise e é levado a São Paulo, onde falece.

DEPOIMENTOS

Arquiteto Oscar Niemeyer (PCB), autor do projeto do Memorial a Gregório: "Gregório Ferreira Gullar, poeta, autor do poema "História de um valente" exaltando Gregório: "Das figuras revolucionárias que conheci e que queriam mudar o Brasil, Gregório era o que representava o povo humilde. Ele acendeu a consciência de que é necessário mudar o Brasil. Nenhum outro revolucionário brasileiro representou tão bem as camadas mais distantes dos problemas políticos e ideológicos, ele que nasceu na roça e aprendeu a cortar cana. Ele, na sua biografia, canta a alegria quando começa a chover. Ele é um exemplo para todo jovem. Este tem que saber que houve, no Brasil, este homem e há na nossa história. Assim, ele é permanente, porque representa o passo adiante da consciência humana que é a liberdade. Não vejo ninguém comparável, hoje, a Gregório".

Os versos célebres dedicados por Ferreira Gullar ao líder comunista, constantes do poema "A história de um valente":

"Mas existe neste terra

muito homem de valor

que é bravo sem matar gente

mas não teme matador,

que gosta de ser gente

e que luta a seu favor, como Gregório.

Governador Jarbas Vasconcelos (PMDB): " Gregório Bezerra foi um idealista que, por sua luta em favor da liberdade e da justiça, honrou Pernambuco e o Brasil. Foi um exemplo para os que lutaram ao seu lado e para a juventude que, na época em que foi preso e torturado, iniciava uma batalha, que levaria anos, em favor da redemocratização do País. Se fosse possível  hoje, a repetição de todos aqueles episódios vividos e enfrentados com coragem e determinação por Gregório Bezerra, não tenho dúvida de que a juventude de novo seria sensibilizada por ele".

Ex-governador e presidente nacional do PSB, Miguel Arraes: "Conheci Gregório Bezerra em 1934, quando eu tinha 17 anos e fazia serviço militar no tiro de Guerra do Recife. Ele era sargento e foi meu instrutor. Depois nos encontramos em muitos momentos das lutas políticas que travamos ao longo desses anos todos. Embora pudéssemos ter divergências pontuais quanto às táticas, sabíamos ter em comum a convicção de que era preciso afirmar a dignidade de nosso povo e lutar contra a injustiça e a opressão. Guardo dele principalmente a lembrança de sua simplicidade e da força com que defendia suas convicções. Vítima da tirania que prende e tortura, nunca vacilou na afirmação do que acreditava. Sua característica mais marcante era a coragem e a convicção".

Luiz Carlos Preste Filho, coordenador do projeto artístico comemorativo do Centenário: "O exílio teve um lado feliz para mim. Convivi com Gregório nove anos. Ele era pessoa frequente na nossa casa, a partir de junho de 1970. Presenciei uma coisa magnífica: um homem que já tinha 70 anos participando das aulas de russo com as crianças. Aprendeu a língua. Importante foi a atuação dele em defesa dos direitos humanos, viajando pela Europa e dando depoimentos à Anistia Internacional. Tinha mais vigor que muitos jovens. Ele não dava chance da gente ficar triste e desanimado. Viajava com um passaporte cubano. Jornalistas russos perguntaram a ele sobre qual a coisa da vida brasileira da qual mais sentia saudade, e ele respondeu, "sinto mesmo é saudade de comer jaca".

Senador Roberto Freire (PPS), que começou a militância seguindo Gregório: "Homenagear Gregório Bezerra é prestar um tributo, antes de tudo, ao ideal de justiça que acompanha o projeto de construção e aperfeiçoamento da civilização. Ele encama os melhores sentimentos humanos - a humildade, a generosidade, o despreendimento material, a fraternidade, sem ceder ao servilismo e à apatia. Por isso, a frase tão decantada: um homem de ferro e flor. Gregório apresenta-se como uma marca diferenciada em minha vida. Já militante comunista, ainda estudante da Faculdade de Direito, como integrante do escritório de advocacia de Rildo Souto Maior, do partido, fui com ele trabalhar na Zona da Mata, na organização de sindicatos rurais. Diria, ele está, de alguma forma, na raiz, bem plantado, de minhas convicções políticas e sonhos por um mundo melhor. Ficar frente a frente e trabalhar com Gregório era uma experiência ímpar, por ele e por nossos objetivos. Já como deputado federal e membro da Comissão de Anistia, fui revê-lo em 79, quando chegava do exílio pelo aeroporto de São Paulo. Vim com ele ao Recife. Devem, talvez, existir vários Gregórios. O ideológico, portanto polêmico em suas concepções; o militante inabalável capaz de, quase sozinho, tomar um quartel ou enfrentar a agonia da tortura; o companheiro solidário das lutas, barreira intransponível ante qualquer vacilação; e o homem terno, ciente do papel a cumprir na passagem pelas terras sofridas do NE, pelo planeta. Mas, para nós, herdeiros do antigo Partido Comunista, todos os Gregórios são um só, ele próprio". 

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GREGÓRIO BEZERRA, UM HOMEM DE FERRO E FLOR

Palavras-chave: Pernambuco, Nordeste