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Gilberto Freyre

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Acervo www.onordeste.com
Gilberto Freyre

GILBERTO de Melo FREYRE nasceu no dia 15 de março de 1900 no Recife. Conclui, em 1920, bacharelado em Artes, na Universidade de Baylor, nos Estados Unidos. Na Universidade de Colúmbia defende, em 1922, a tese "Social life in Brazil in the middlle of the 19th Century" para receber o grau de M.A (Magister Artium ou Master of Arts).

A tese foi publicada em Baltimore pela Hispanic American Historical Review. Organiza, em 1926, o Livro do Nordeste, edição comemorativa do primeiro centenário de fundação do Diario de Pernambuco, onde pela primeira vez publicou-se "Evocação do Recife", poema modernista de Manuel Bandeira.

Lança, em 1926, o "Manifesto Regionalista", lido, no Recife, no Primeiro Congresso Brasileiro de Regionalismo. Defendeu como deputado federal, em 1948, a criação do Instituto Joaquim Nabuco, em discurso na Câmara dos Deputados. O Instituto de Pesquisas foi fundado um ano depois. Hoje, chama-se Fundação Joaquim Nabuco.

Gilberto Freyre destacou-se como ensaísta, cientista social, conferencista, poeta, ficcionista. Suas obras Casa Grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal (1933); Sobrados e Mucambos (1936); e Ordem e Progresso (1959) foram editadas em vários idiomas e são tidas como referências no estudo da sociedade brasileira. O escritor faleceu no Recife, no dia 18 de julho de 1987.

PUBLICAÇÕES NO BRASIL:

- CASA-GRANDE & senzala: formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal. Rio de Janeiro: Maia & Schmidt, 1933.

- ARTIGOS de jornal. Recife: Mozart, 1934.

- GUIA prático, histórico e sentimental da cidade do Recife. Ilustrado por Luís Jardim. Recife: s. n., 1934.

- SOBRADOS e mocambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1936.

- NORDESTE: aspectos da influencia da cana sobre a vida e a paisagem do nordeste do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1937.

- CONFERENCIAS na Europa. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1938. 112p.

- AÇÚCAR: algumas receitas de doces e bolos dos engenhos do nordeste. Rio de Janeiro: José Olympio, 1939.

- OLINDA: 2º guia pratico, histórico e sentimental de cidade brasileira. Ilustrado por Manuel Bandeira. Recife: Edição do autor, 1939.

- O MUNDO que o português criou: aspectos das relações sociais e de cultura do Brasil com Portugal e as colônias portuguesas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1940.(Documentos Brasileiros, 28).

- UM ENGENHEIRO francês no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1940.(Documentos Brasileiros, 26).

- REGIÃO e tradição. Ilustrado por Cícero Dias. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1941. (Documentos Brasileiros, 29).

- INGLESES. Rio de Janeiro: José Olympio, 1942.

- PROBLEMAS brasileiros de antropologia. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1943.

- NA BAHIA em 1943. Rio de Janeiro: Companhia Brasileira de Artes Gráficas, 1944.

- PERFIL de Euclydes e outros perfis. Rio de Janeiro: José Olympio, 1944. (Documentos Brasileiros, 41).

- SOCIOLOGIA: introdução ao estudo dos seus princípios. Rio de Janeiro: José Olympio, 1945. 2v.

- INTERPRETAÇÃO do Brasil: aspectos da formação social brasileira como processo de amalgamento de raças e culturas. Traduzido por Olívio Montenegro. Rio de Janeiro: José Olympio, 1947. (Documentos Brasileiros, 56)

- INGLESES no Brasil: aspectos da influência britânica sobre a vida, a paisagem e a cultura do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948. (Documentos Brasileiros, 58).

- QUASE política: 9 discursos e 1 conferência mandados publicar por um grupo de amigos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1950.

- AVENTURA e rotina: sugestões de uma viagem a procura das constantes portuguesas de caráter e ação. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. (Documentos Brasileiros, 77).

- UM BRASILEIRO em terras portuguesas: introdução a uma possível luso-tropicologia acompanhada de conferências e discursos proferidos em Portugal e em terras lusitanas e ex-lusitanas da Ásia, da África e do Atlântico. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. (Documentos Brasileiros, 76).

- ASSOMBRAÇÕES do Recife velho. Ilustrado por Lula Cardoso Ayres. Rio de Janeiro: Condé, 1955. -SUGESTÕES em torno de uma nova orientação para as relações intranacionais no Brasil. São Paulo: Fórum Roberto Simonsen, 1958.
- ORDEM e progresso: processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre, aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre e da monarquia para a república. Rio de Janeiro: José Olympio, 1959. 2v.

- A PROPÓSITO de frades: sugestões em torno da influência de religiosos de São Francisco e de outras ordens sobre o desenvolvimento de modernas civilizações cristãs, especialmente das hispânicas nos trópicos. Salvador: Aguiar Souza, 1959.

- O VELHO Félix e suas "memórias de um Cavalcanti". Rio de Janeiro: José Olympio, 1959.

- UMA POLÍTICA transnacional de cultura para o Brasil de hoje. Belo Horizonte: Revista Brasileira de Estudos Políticos, 1960.

- SUGESTÕES de um novo contato com universidades européias. Recife: Imprensa Universitária, 1961.

- ARTE, ciência e trópico: em torno de alguns problemas de sociologia da arte. São Paulo: Martins, 1962.

- HOMEM, cultura e trópico. Recife: Imprensa Universitária, 1962.

- TALVEZ poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962.

- VIDA, forma e cor. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962.

- O ESCRAVO nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX: tentativa de interpretação antropológica, através de anúncios de jornais, de característicos de personalidade e de deformações de corpo de negros ou mestiços, fugidos ou expostos à venda, como escravos, no Brasil do século passado. Recife: Imprensa Universitária, 1963.

- DONA Sinhá e o filho padre: seminovela. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964.

- RETALHOS de jornais velhos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964.

- VIDA social no Brasil nos meados do século XIX. Traduzido por Waldemar Valente. Recife: Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, 1964.

- 6 CONFERÊNCIAS em busca de um leitor. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965.

- O RECIFE , sim! Recife, não! Rio de Janeiro: Arquimedes, 1967.

- BRASIS, Brasil e Brasília: sugestões em torno de problemas brasileiros de unidade e diversidade e das relações de alguns deles com problemas gerais de pluralismo étnico e cultural. Rio de Janeiro: Record, 1968.

- COMO e porque sou e não sou sociólogo. Brasília: Universidade de Brasília, 1968.

- OLIVEIRA Lima, Don Quixote gordo. Recife: Imprensa Universitária, 1968.

- NÓS e a Europa germânica: em torno de alguns aspectos das relações do Brasil com a cultura germânica no decorrer do século XIX. Rio de Janeiro: Grifo, 1971.

- NOVO mundo nos trópicos. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1971.

- SELETA para jovens. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971.

- A CONDIÇÃO humana e outros temas. Rio de Janeiro: Grifo, 1972.

- ALÉM do apenas moderno: sugestões em torno de possíveis futuros do homem, em geral, e do homem brasileiro, em particular. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973.

- O BRASILEIRO entre os outros hispanos: afinidades e possíveis futuros nas suas interrelações. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975. (Coleção Documentos Brasileiros, 168).

- A PRESENÇA do açúcar na formação brasileira. Rio de Janeiro: Instituto do Açúcar e do Alcool, 1975. (Coleção Canavieira, 16).

- TEMPO morto e outros tempos: trechos de um diário de adolescência e primeira mocidade, 1915-1930. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975. -CASAS-GRANDES & senzalas. Recife: Ranulpho Editora de Artes, 1977.

- OBRA escolhida: Casa-grande & senzala, Nordeste e Novo mundo nos trópicos. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.

- O OUTRO amor do Dr. Paulo: seminovela, continuação de Dona Sinhá e o filho padre. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977.

- ALHOS e bugalhos: ensaios sobre temas contraditórios, de Joyce a cachaça; de José Lins do Rego ao cartão postal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.

- ARTE & ferro: em torno de portões, varandas e grades do Recife velho. Recife: Ranulpho Editora de Arte, 1978

- CARTAS do próprio punho sobre pessoas e coisas do Brasil e do estrangeiro. Organizado por Sylvio Rabello. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1978.

- CONTRIBUIÇÃO para uma sociologia da biografia: o exemplo de Luís de Albuquerque, governador de Mato Grosso, no fim do século XVII. Cuiabá: Fundação Cultural de Mato Grosso, 1978.

- PREFÁCIOS desgarrados. Organizado por Edson Nery da Fonseca. Rio de Janeiro: Cátedra, 1978. 2 v.

- HERÓIS e vilões no romance brasileiro: em torno das projeções de tipos sócio-antropológicos em personagens de romances nacionais do século XIX e do atual. São Paulo: Cultrix, 1979.

- OH DE CASA! em torno da casa brasileira e de sua projeção sobre um tipo nacional de homem. Recife: Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, 1979.

- PESSOAS, coisas & animais. Organizado por Edson Nery da Fonseca. São Paulo: MPM Propaganda, 1979.

- TEMPO de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor, 1918 a 1926. Organizado por José Antônio Gonsalves de Mello. São Paulo: IBRASA, 1979. 2v.

- GILBERTO poeta: algumas confissões. Recife: Ranulpho Editora de Arte, 1980.

- POESIA reunida. Recife: Pirata, 1980.

- CASA-GRANDE & senzala em quadrinhos. Desenhos de Ivan Wasth Rodrigues. Rio de Janeiro: Brasil-América, 1981.

- DESENHOS. Recife: Prefeitura Municipal, 1981.

- RURBANIZAÇÃO: que é? Recife: Massangana, 1982.

- APIPUCOS: que há num nome? Recife: Massangana, 1983.

- INSURGÊNCIAS e ressurgências atuais: cruzamentos de sins e nãos num mundo em transição. Rio de Janeiro: Globo, 1983.

- MÉDICOS, doentes e contextos sociais: uma abordagem sociológica. Rio de Janeiro: Globo, 1983.

- HOMENS, engenharias e rumos sociais: em torno das relações entre homens de hoje, sobretudo os brasileiros, e as três engenharias indispensáveis a políticas de desenvolvimento e segurança, por um lado, e por outro lado, a ajustamentos a espaços e a tempos, a engenharia física, a humana e a social, considerando-se, inclusive, o desafio, a essas engenharias, das selvas do Brasil, em particular, das amazônicas. Organizado por Edson Nery da Fonseca. Rio de Janeiro: Record, 1987.

- MODOS de homem & modas de mulher. Rio de Janeiro: Record, 1987.

- FERRO e civilização no Brasil. Recife: Fundação Gilberto Freyre, 1988.

- BAHIA e baianos. Salvador: Fundação das Artes, 1990.

- DISCURSOS parlamentares. Brasília: Câmara dos Deputados, 1994.

- NOVAS conferências em busca de leitores. Organizado por Edson Nery da Fonseca. Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 1995.

- Antecipações (2001).

- CASA GRANDE & senzala: formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal (2002, edição crítica).

- Americanidade e latinidade da América Latina e outros temas afins (2003).

- China tropical e outros escritos sobre a influência do Oriente na cultura luso-tropical (2003).

- Palavras repatriadas (2003).

- Três histórias mais ou menos inventadas (2003).

Fonte: www.portaldoescritorpe.com

Gilberto Freyre

Nasce no Recife, em 15 de março de 1900, Gilberto Freyre, filho do Dr. Alfredo Freyre " educador, Juiz de Direito e catedrático de Economia Política da Faculdade de Direito do Recife " e de D. Francisca de Mello Freyre.

Aos seis anos de idade tenta fugir de casa, escondendo-se em Olinda, cidade à qual devotou grande amor e da qual escreveria, em 1939, o 2° Guia Prático, Histórico e Sentimental.

Inicia seus estudos freqüentando o Jardim da Infância do Colégio Americano Gilreath, em 1908. Faz seu primeiro contato com a literatura através das Viagens de Gulliver. Mas, apesar de seu interesse, não consegue aprender a escrever, fazendo-se notar pelos desenhos. Toma aulas particulares com o pintor Telles Júnior, que reclama contra sua insistência em deformar os modelos. Começa a aprender a ler e escrever em inglês com Mr. Williams, que elogia seus desenhos.

Em 1909 falece sua avó materna, que viva a mimá-lo por supor ser o neto retardado, pela dificuldade em aprender a escrever. Ocorrem suas primeiras experiências rurais de menino de engenho, nessa época, quando passa temporada no Engenho São Severino do Ramo, pertencente a parentes seus. Mais tarde escreverá sobre essa primeira experiência numa de suas melhores páginas, incluída em Pessoas, Coisas & Animais.

Nas férias de 1911 passa seu primeiro verão na praia de Boa Viagem, onde escreve um soneto camoniano e enche muitos cadernos com desenhos e caricaturas.

Dá as primeiras aulas no Colégio, em 1913.

Em 1914, ensina Latim, que aprendeu com o próprio pai, conhecido humanista recifense. Toma parte ativa nos trabalhos da sociedade literária do colégio. Torna-se redator-chefe do jornal impresso do colégio: O Lábaro.

Em 1915, tem lições particulares de Francês com Madamme Meunieur.

Corresponde-se, em 1916, com o jornalista paraibano Carlos Dias Fernandes, que o convida a proferir palestra na capital do Estado, João Pessoa. Seu pai não apreciava Carlos Dias Fernandes, pela vida boêmia que levava. Mesmo assim Gilberto Freyre viaja autorizado pela mãe e lê no Cine-Teatro Pathé sua primeira conferência pública, dissertando sobre Spencer e o problema da educação no Brasil. O texto foi publicado no jornal O Norte, com elogios de Carlos Dias Fernandes.

Influenciado pelos mestres do colégio, tanto quanto pela leitura do Peregrino de Bunyan e de uma biografia do Dr. Livingstone, toma parte em atividades evangélicas e visita a gente miserável dos mocambos recifenses. Interessa-se pelo socialismo cristão, mas lê como uma espécie de antídoto a seu misticismo, autores como Spencer e Comte.

Eleito presidente do Clube de Informações Mundiais, fundado pela Associação Cristã de Moços do Recife.

Em 1917, conclui o curso de Bacharel em Ciências e Letras do Colégio Americano Gilreath. Eleito orador da turma, cujo paraninfo é o historiador Oliveira Lima, desde então seu amigo, faz-se notar pelo discurso que profere. Começa a estudar grego. Torna-se membro da Igreja Evangélica, desagradando a mãe e a família católica.

Segue, no início do ano de 1918, para os Estados Unidos, fixando-se em Waco (Texas) para matricular-se na Universidade de Baylor. Inicia sua colaboração no Diário de Pernambuco, com uma série de cartas intituladas "Da outra América".

No ano de 1919, naquela Universidade, auxilia o geólogo John Casper Branner no preparo do texto português da "Geologia do Brasil". Ensina francês a jovens oficiais norte-americanos convocados para a guerra. Estuda Literatura com A. J. Armstrong, professor de literatura e crítico literário especializado na filosofia e na poesia de Robert Browning. Escreve os primeiros artigos em inglês publicados por um jornal de Waco. Divulga suas primeiras caricaturas.

Fonte: www.releituras.com


Gilberto Freyre e a sociologia do futebol

"O futebol caracteriza-se pelo prazer da elasticidade, da surpresa, da retórica, que lembra passos da dança e fintas de capoeira."

"O nosso estilo de jogar futebol me parece contrastar com o dos europeus por um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de brilho e de espontaneidade individual em que se exprime o mulatismo brasileiro." (1938)

"O nosso futebol mulato é uma expressão de nossa formação social, democrática como nenhuma e rebelde a excessos de ordenação interna e externa ou a totalitarismos que façam desaparecer a variação individual ou espontaneidade pessoal." (1938)

Gilberto Freyre

Gilberto de Mello Freire (Recife, PE, 15/3/1900 - Recife, PE, 18/7/1987), sociólogo, escritor e deputado na Constituinte de 1946.

Deixou 63 livros publicados, incluindo o clássico "Casa grande e senzala" (1933).

Escreveu o prefácio da primeira edição do livro "O negro no futebol brasileiro" de Mário Filho, que é considerado o "Casa grande e senzala" do futebol.


A vida oculta de Freyre

Antonio Gonçalves Filho

Os 20 anos da morte do autor de Casa-Grande & Senzala, o recifense Gilberto Freyre, são marcados por três iniciativas que colocam em discussão a obra do sociólogo - lembrado, como nenhum outro no Brasil, tanto por intelectuais como por populares (em 1962, a escola de samba Mangueira desfilou com enredo inspirado em seu mais famoso livro). A primeira delas é um estudo destinado a provocar polêmica, Gilberto Freyre: Uma Biografia Cultural (Editora Record, 714 págs., R$ 80), do antropólogo Enrique Rodríguez Larreta e do professor de Letras Guillermo Giucci, ambos nascidos no Uruguai. Nela, a dupla examina os anos de juventude de Gilberto Freyre, de 1900 a 1936, traçando uma genealogia intelectual de suas principais contribuições sociológicas. As outras duas iniciativas são o lançamento do livro de memórias do maior amigo de Freyre, Edson Nery da Fonseca, Em Torno de Gilberto Freyre, que será lançado na próxima semana, e uma exposição que o Museu da Língua Portuguesa inaugura no dia 27.

Na biografia cultural escrita por Larreta e Giucci, Freyre surge como uma personalidade multifacetada, uma identidade não só em conflito com as culturas por onde passou, na América e Europa, como com a própria sexualidade. O livro da dupla é bastante honesto para não fugir de temas como as experiências homoeróticas de Freyre ou outras discussões incômodas - sobretudo sobre a tese de que a presença de uma democracia étnica leva automaticamente a uma democracia social. Nesse sentido, todo Gilberto Freyre, defendem os autores da biografia, conflui para Casa-Grande & Senzala.

Não por outra razão, eles concentram seus esforços na análise da obra central do sociólogo, vista como a representação de um mito, "uma crença profunda para ser compartilhada por uma nação" no valor da mistura de raças e da integração dos contrários. O dado biográfico, justificam, é essencial para se entender as condições de possibilidade da obra. "Só alguém com conhecimento em primeira mão de outras culturas modernas podia valorizar, comparativamente, a experiência brasileira da miscigenação", escrevem os dois professores, que concederam uma entrevista ao Estado, reproduzida nesta e na página seguinte.

Como se diz na biografia, as posições políticas do sociólogo nos anos 1960 contribuíram para que sua obra fosse lida como uma justificação ideológica do patriarcalismo escravocrata. Em que medida os estudiosos estrangeiros ajudaram a recolocá-lo no patamar dos pioneiros da moderna antropologia?

Dentre os historiadores franceses da Escola dos Annales, como Fernand Braudel e Lucien Febvre, Gilberto Freyre sempre foi reconhecido pelas qualidades de seu principal livro, Casa-Grande & Senzala. Esses historiadores destacaram sua contribuição para uma antropologia histórica, com ênfase no cotidiano, na culinária e na cultura material. Nessas leituras, a temática racial ou as posições políticas nunca estiveram em primeiro plano. Intelectuais franceses famosos como Georges Dumezil, Philippe Ariès e Maurice Blanchot foram simpatizantes da direita nacionalista francesa nos anos 1930. Até mesmo um antropólogo de ampla influência no Brasil, como Claude Lévi-Strauss, sustentou posições políticas acerca da imigração, das mulheres e da cultura muçulmana que podem ser consideradas reacionárias. O vínculo entre a obra de um autor e suas opiniões políticas não se expressa em simples relações de causa e efeito, nem comprometem o conjunto de sua obra, como é mostrado em nossa biografia de Gilberto Freyre.

A leitura corrente de Gilberto Freyre identifica em sua obra uma defesa ideológica da miscigenação que camuflaria uma realidade de discriminação racial. A leitura dos textos de Herbert Spencer sobre os antípodas marcou o pensamento antropológico do brasileiro?

(...)

Fonte: "O Estado de São Paulo", 4/11/2007

Livro revela Gilberto Freyre em suas contradições

Rafael Dias - Especial pra o Diario

Todo cânone padece de um mal. No caso de Gilberto Freyre, são dois. Mitificada, sua obra, alçada ao panteão do pensamento social brasileiro com o livro Casa-grande e senzala (1933), costuma ser menos lida que comentada. Mais: os poucos que a lêem, polarizaram-na, ao longo do último século, num cabo de guerra entre direitistas e esquerdistas, freyrianos e não-freyrianos. Assim que sua tese sobre a construção de uma sociedade brasileira sincretizada e multiculturalista foi ovacionada, contrariando o pessimismo da corrente determinista (o atraso era atribuído ao calor tropical e ao tráfico de escravos), não faltou quem a classificasse de racista e elitizante - visão preconceituosa que se perpetua até hoje entre os leigos. Passada a refrega de valores morais e políticos, o sociólogo e antropólogo pernambucano passou a ser visto com mais apuro pelos meios acadêmicos, após a sua morte em 1987. Este ano, em que lembram os 20 anos de falecimento do autor, novas obras e projetos em vários estados recontextualizam e reforçam o valor da obra de Freyre.

Um dos lançamentos mais esperados é o livro Gilberto Freyre: Uma biografia cultural, escrito por dois acadêmicos uruguaios radicados no Rio de Janeiro, Enrique Larreta e Guillermo Giucci, que chega amanhã às livrarias de todo país sob a chancela da editora Civilização Brasileira, após dez anos de pesquisas e entrevistas intensos. De Pernambuco, sai do forno daqui a algumas semanas a coletânea Em torno de Gilberto Freyre - ensaios e conferências, organizada pelo escritor Edson Nery da Fonseca, amigo próximo e um dos maiores especialistas da obra freyriana, prensada pela editora Massangana/ Fundação Joaquim Nabuco. Também nesta segunda, será inaugurada, no Museu da Língua Portuguesa (Estação da Luz), em São Paulo, a exposição Gilberto Freyre - Intérprete do Brasil, com curadoria de Júlia Peregrino. (...)

Biografia - Primeiro de três volumes, a obra de Larreta e Giucci dá o primeiro passo no sentido de biografar com fidelidade e detalhismo o legado de Gilberto Freyre, carente ainda de um relato biográfico definitivo que desse conta de sua complexidade. Até então, a tentativa se limitava aos trabalhos de Diogo de Mello Meneses e Vamireh Chacon, que tinham um caráter mais laudatório que acadêmico. O mais próximo a que se havia chegado foi a premiada obra Gilberto Freyre: Um vitoriano nos trópicos, da cientista social Maria Lúcia Palhares-Burke. Com o lançamento dos autores uruguaios, a lacuna é preenchida com uma biografia intelectual em que não apenas se arrolam fatos e datas; confrontam-se opiniões, estabelecem conexões com o contexto cultural e histórico da época e, sobretudo, mostram Freyre em suas contradições. Para a pesquisa, os autores coletaram dados nas universidades de Stanford e Columbia e nos arquivos do Diario de Pernambuco, do qual Gilberto Freyre foi correspondente nos EUA.

Por esse olhar clínico, o livro não poderia deixar de assumirum viés polêmico. Neste primeiro apanhado, que delimita o processo de formação intelectual do jovem Gilberto Freyre, de 1900 a 1936 (até o lançamento de Sobrados e Mocambos), testemunhamos um indivíduo alegre e afetuoso, mas também movido por crises e angústias. O livro também não deixa de citar experiências homoeróticas, bem como as controvérsias em torno de Casa-grande e senzala, criticado por muito tempo como um discurso da elite escravocrata para camuflar a discriminação racial. "Isso foi superado. Hoje está sendo redescoberto por trazer uma visão otimista da sociedade brasileira e mostrar a condição social do negro como escravo, um pioineirismo para a época", delineia a antropóloga Fátima Quintas.

Serviço

Gilberto Freyre: Uma biografia cultural, de Enrique Larreta e Guillermo Giucci.
Editora: Civilização Brasileira
Preço médio: R$ 80

Fonte: www.pernambuco.com


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GILBERTO FREYRE

Palavras-chave: Nordeste, Pernambuco