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Francisco Brennand

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Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand nasceu em 11 de junho de 1927, em Recife. Dedicou-se à carreira artística influenciado pelo convívio com Abelardo da Hora e Álvaro Amorim. Estudou com Murilo Lagreca de 1945 a 1947, ano em que conquistou o primeiro prêmio no Salão do Museu do Estado de Pernambuco. Na Europa, entrou em contato com a obra arquitetônica e escultórica de Antoni Gaudí e a cerâmica de Pablo Picasso. Na Itália, aprimorou seus conhecimentos de cerâmica estagiando numa fábrica de faiança. Em 1971, instalou seu ateliê-oficina nas ruínas da Cerâmica São João da Várzea, empresa fundada por seu pai. Em 1994, recebeu o Prêmio Interamericano de Cultura Gabriela Mistral e, dois anos mais tarde, a Ordem do Mérito Cultural. Dentre suas obras, destacam-se os murais do Aeroporto Internacional de Guararapes e da Biblioteca Pública de Pernambuco.

Entrevista "Sou um escultor com coração de pintor"

A produção de Francisco Brennand encanta os visitantes de seu museu-oficina localizado no bairro da Várzea em Recife, onde mais de duas mil esculturas distribuem-se em 14 mil metros quadrados de jardins projetados por Roberto Burle Max. A propriedade, à qual o artista dedicou quase metade de sua vida, foi batizada de Oficina Cerâmica Francisco Brennand e transformou-se num dos principais pontos turísticos da capital pernambucana.
Suas obras remetem a um universo peculiar, do qual fazem parte mitos antigos e figuras femininas de intensa sexualidade.
Nesta entrevista concedida via e-mail, ele critica o controle da economia de mercado sobre a produção artística e reafirma sua grande paixão pela pintura.

  
  Francisco Brennand Foto: Juan Esteves
   
JU " A escultura, e em especial a cerâmica, tem pouco destaque nas escolas de arte universitárias. Por que esse distanciamento da academia?
Francisco Brennand " Todas as manifestações artísticas dentro do mundo contemporâneo são rigidamente controladas pela economia de mercado através de leilões, galerias, museus, colecionadores e intercâmbios culturais que vazam para a mídia as suas implacáveis preferências. Se há alguma coisa de uma evidência chocante, é o quase fetichismo ligado a chamada "pintura a óleo sobre tela" (pintura de cavalete), em detrimento de todas as outras técnicas artísticas. Por exemplo: jamais uma escultura de Picasso chegaria ao preço de um quadro a óleo (Menino com cachimbo), vendido num leilão por 104 milhões de dólares. Portanto, não é de espantar que o mundo acadêmico e as escolas de arte sofram essa mesma influência. Além disso, o século XIX com os seus conceitos de artes maiores e artes menores foi taxativo em considerar que tudo o que não fosse pintura a óleo sobre tela e escultura talhada em mármore de Carrara era arte menor. Daí a cerâmica ser tida como uma arte apenas decorativa e utilitária ou mesmo arte aplicada. Em parte, o mundo moderno corrigiu essa "bobagem", pois grandes artistas como Gauguin, Picasso, Léger, Matisse, Miró fizeram cerâmica com absoluto sucesso.

JU " Qual a razão da mulher ter uma presença tão marcante em tua produção artística?
Brennand " Desde a pré-história, as mulheres foram divinizadas, sobretudo pelo culto da fertilidade. O grande enigma do universo é a reprodução. As coisas são eternas porque se reproduzem. Meu "olhar amoroso" sobre a mulher é apenas o olhar de um homem, daí minhas preferências temáticas.

JU " Em 2003, inauguraste o Espaço Cultural Accademia, que apresenta uma seleção de teus desenhos e pinturas. O lugar funciona como uma iniciação ao teu universo artístico?
Brennand " Sou um escultor com coração de pintor. Todos os meus grandes prêmios na juventude foram prêmios de pintura, desde o Salão do Museu do Estado de Pernambuco, há 61 anos. Sou um escultor que trabalha com cerâmica, mas não aceito o rótulo de ceramista. Este equívoco provém da atividade industrial da minha família. Em 1917, meu pai fundou a Cerâmica São João da Várzea, onde hoje funciona o meu ateliê, conhecido como Oficina Cerâmica. Trabalhei durante 37 anos na reforma desse conjunto fabril em ruínas (o que os europeus chamam de Arqueologia industrial) e consegui povoá-lo, nos espaços interiores e exteriores, com cerca de 2 mil esculturas. A intensa visibilidade desse conjunto escultórico fez com que as novas gerações não se apercebessem que jamais havia deixado a pintura de lado. Apenas eu não poderia expô-las ao lado das esculturas por conta das emanações dos fornos, altamente prejudiciais aos pigmentos dos quadros. Pintando em outro ateliê, pouco a pouco, essa atividade começou a tomar a aparência de algo secreto e como minhas exposições de pinturas diminuíram consideravelmente no mercado de arte, pareceu estranho a muitos que a partir de 2003, aparecessem cerca de mil quadros na Reserva Técnica da Accademia. Esse espaço, incluindo o Auditório, nada tem a ver com o meu universo artístico que se resume a um pequeno ateliê onde continuo a trabalhar meus quadros.

JU " O livro Brennand Desenhos, de Weydson Barros Leal, chamou a atenção para a tua desconhecida relação com a fotografia. Quais os frutos dessa aproximação com a linguagem fotográfica? 
Brennand " Desde 1972, de posse de uma máquina Polaroid, comecei a registrar fotograficamente certas coisas que me escapavam ao olhar e a memória. Algumas dessas fotos se transformavam em desenhos ou pinturas e, logo adiante, eram sempre reelaboradas de outra maneira e se modificavam num novo quadro. Poderia dizer, como Picasso, que meus trabalhos não são senão a soma de muitas destruições. Coleciono tudo aquilo que pode me servir de inspiração para pinturas ou esculturas. Esta é a linguagem que continua a render frutos. Não é difícil verificar que há uma grande liberdade de interpretação das formas nos meus quadros e desenhos, retirando-lhes totalmente o caráter de artista realista, neo-realista ou hiper-realista. Quem diria, por exemplo, que minhas esculturas tão intensamente deformadas também partiram, originariamente, de fotos ou de fragmentos de fotos ou de esquartejamentos propositados até chegar a uma figuração idealizada. Enfim, aquilo que o pintor neoclássico francês Ingres definia como: "A deformação é uma homenagem a forma".

JU " Diz-se que produzes tanto que estás quase sendo expulso de teu ateliê por tuas próprias obras. O que te impulsiona?
Brennand " Dizem que Picasso, quando ainda em Paris, tinha de mudar de ateliê pela simples razão deles ficarem repletos de pinturas e desenhos. E deve ser verdade porque não existe na história da pintura nenhum artista que tenha produzido tantos artefatos: pinturas, desenhos, gravuras, cerâmicas, linóleos, litografias, esculturas, xilogravuras, chegando próximo de 40 mil peças. Minha produção junto daquela do genial espanhol, pode ser considerada normal para um artista apaixonado pela sua profissão.

JU " Já havias apresentado obras tuas em Porto Alegre? Que artistas gaúchos tu conheces?
Brennand " O intercâmbio cultural brasileiro não nos permite essas aventuras e é preciso levar em conta que nascemos e moramos num continente. Já expus em Curitiba, que eu supunha ser muito perto de Porto Alegre, mas não era. Pensava muito em conhecer a Serra Gaúcha, mas acabei desistindo. Conheci o escultor Francisco Stockinger e o pintor, desenhista e gravador Carlos Scliar. Em 1961, na Galeria São Luis, em São Paulo, quando arrumava uma exposição de pinturas a óleo, Stockinger estava acabando de expor esculturas. Fizemos uma boa amizade. Admiro enormemente a pintura de Iberê Camargo e achei louvável a idéia do museu-fundação, com projeto do genial Álvaro Siza. O arquiteto chegou a pensar em revestir as paredes do museu com ladrilhos cerâmicos brancos, mas dificuldades técnicas me impediram de colaborar nesta obra-prima, hoje realizada com perfeição em concreto branco.
Artes plásticas Exposição do Museu da UFRGS exibe, até o final do mês, esculturas e desenhos do consagrado artista pernambucano 
 

Fonte: ufrgs

Principais Obras

Tapetes
Pássaro Dourado - Particular (Recife)
Besouro Azul - Particular (Recife)
Pombo - Particular (Recife)
Tatu - Particular (Recife)
Lagarta - Particular (Recife)
Grande Fruto - Particular (Recife)
Mulheres e Frutos - Ramon Conde (Rio)
Tapete São João - Ricardo Brennand (Recife)
Jarro Com Flores - Particular (Recife)
Gênese - Dr. Arnaldo Nolasco (Recife)

Pinturas a óleo
1947 - 1ª Visão da Terra Santa - Museu do Estado de Pernambuco
1948 - Auto-retrato como Cardeal Inquisidor - Ricardo Brennand (Recife)
1948 - Frade em Oração - Museu do Estado de Pernambuco (Recife)
1958 - Paisagem com Vaqueiros - Particular (Recife)
1968 - Natureza Morta - Dr. Itamar Roberto de Mello Tavares (Rio)
1968 - Pássaro - Dr. Gustavo Affonso Capanema (Rio)
1969 - Tartaruga -
1968 - O Rio Sagrado - Adolpho Bloch (Manchete)
1971 - Serpente - Ricardo Brennand (Rio Amazonas)
1971 - Nascimento do Tucano - Ricardo Brennand
1971 - Fúria (série amazônica) - Ricardo Brennand
1969 - O Pássaro Azul - Cia. Seguros Sul América (Recife)
1967 - Café da Manhã - José Scarano (SP)
1969 - A Mãe do Santo - Adolpho Bloch (Manchete)
1969 - Carangueijo - Cláudio Araújo (Rio)
1966 - A Coluna Barroca - Do Artista (Rio)
1966 - São Sebastião - Dr. Sérgio Guerra (Recife)
1973 - São Francisco (O Estigma) - Carlos Ranulpho (Recife)
1961 - São Francisco de Assis - Museu de Arte Moderna (Bahia)
1965 - O Tigre - Particular (Recife)
1975 - Floral - Dr. Sérgio Guerra (Recife)

Murais Cerâmicos
- Anchieta - Ginásio Itanhaém (SP)
- Batalha de Guararapes - Banco Bandeirantes do Comércio S.A. (Recife)
- Deusa da Floresta - Associação dos Servidores do Estado de Pernambuco
- Eça de Queirós - Edifício Eça de Queirós (Recife)
- Homenagem a D. Pedro I e D. Pedro IV - Edifício D. Pedro I (Recife)
- Grande Floral - Ed. Sede Banco do Brasil S.A. (Recife)
- Luiz de Camões - Ed. Luiz de Camões (Recife)
- Cana de Açúcar - Museu do Açúcar (Recife)
- O Rio - Compesa
- Pastoral - Aeroporto Internacional dos Guararapes (Recife)

Muito antes de se falar na Transamazônica, ele já havia pintado uma série de 12 grandes telas a óleo, em dimensão mural, que denominou "Série Amazônica".
Nordestino, nascido no Engenho São João da Várzea, Francisco Brennand não se considera um pintor regional: "Vejo um só Brasil e acho que a Amazônia nos dá uma visão enormemente ampliada da chamada Zona da Mata Nordestina". Para ele, a pintura moderna já tem suas "cartas de nobreza", já percorreu todos os caminhos. O que existe hoje é uma espécie de Classicismo do Moderno, onde se sente integrado.

Frutos e Flores
Sua insistência sobre temas onde aparecem frutos e flores, caules e sementes, englobando o mundo vegetal, entremeado de animais e insetos (às vezes muito parecidos com os vegetais sobre os quais pousam), vem da grande liberdade de expressão que encontrou neste caminho.
"Ninguém se preocupa com o alongamento da asa de uma mariposa, com a enormidade da cauda de uma onça e isso me deixa livre para deformá-los à vontade, reinterpretando essas formas de acordo com os meus meios usuais de expressão".

A preferência pelos murais é que levou o artista, dedicado à pintura desde os 15 anos de idade, a partir para a cerâmica, como suporte principal de seus trabalhos.
Ele não vê nenhuma distinção para o pintor, entre o manejar seus pincéis sobre uma superfície de tela, papel, madeira ou cerâmica.

Tapeçaria / Cerâmica / Pintura foram praticamente uma unidade na arte de Brennand que tem se apaixonado ultimamente pelas serigrafias: "pela simplicidade de seus meios e estando ao alcance de todas as classes, a serigrafia é uma maneira válida de levar a nossa arte aos lugares que provavelmente ela jamais atingiria em sua forma original".

A procura dos trabalhos do autor é sistemática, há cerca de 20 anos, e, atualmente, com possibilidades de exportação. (...)

Fonte: Gente Nossa, por Anamelia Dantas Maciel, Livraria São José, Rio de Janeiro, 1975

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