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Dicionário do Nordeste

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Reprodução da capa/Acervo www.onordeste.com
Dicionário do Nordeste

Dicionário do Nordeste teve sua primeira edição publicada pela editora Estação Liberdade, em 2004, com 5.000 palavras e expressões, organizado pelo jornalista pernambucano Fred Navarro.

Em nova edição, essa importante obra de referência traça, de forma divertida e curiosa, as expressões idiomáticas encontradas no Nordeste do Brasil. O livro possui mais de 5.000 palavras e expressões e pesquisa em mais de mil fontes, incluindo artistas como Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Lenine, Gilberto Gil, Falcão, Chico César e Chico Science.

O livro começou como uma curiosidade pessoal do jornalista Fred Navarro, ganhou caráter jornalístico quando de sua primeira versão (Assim Falava Lampião, Estação Liberdade, 1998) e depois evoluiu para um projeto mais ousado, com um número significativo de referências coletadas de um vasto universo composto de literatura de cordel, discos, livros e filmes, abrangendo toda a região Nordeste, do Maranhão até a Bahia.

Como boa parte das palavras e expressões tem mais de um sentido, encontram-se nesta obra cerca de 6.300 diferentes acepções. De origens diversas (portuguesas, indígenas, espanholas, africanas, francesas, holandesas, árabes, gregas, inglesas), elas ganharam uma roupagem local, personalizada e intransferível, marcada pelo bom humor e pelas referências à terra, aos animais, à geografia e ao dia-a-dia das pessoas que vivem na região Nordeste do Brasil.

Até a finalização desse trabalho jornalístico independente, cujo objetivo foi o de reunir em um único volume parte considerável do acervo lingüístico daquela região, o autor passou oito anos pesquisando, checando informações, cruzando fontes, lendo dicionários e fazendo inúmeras viagens à região, em busca de exemplos, provas ou referências.

Sobre a obra

"O Brasil é um arquipélago formado por linhas históricas, o que se reflete no plano sociocultural e lingüístico. Revendo este aspecto, a língua portuguesa trazida pelos colonizadores foi-se propagando em ondas de ação lenta e eficiente sobre os falares indígenas, a partir de núcleos fundamentais, entre os quais Pernambuco e Bahia, os mais antigos pólos irradiadores e fixadores desta língua européia na terra do pau-brasil. Formou, assim, dessa língua transplantada nos primórdios da colonização, a base do dialeto nordestino que leva o seu povo a falar diferente do resto do país.

Assim falamos nós, nordestinos, do Maranhão à Bahia, um dialeto cheio de arcaísmos, de modismos variados, não só no vocabulário, mas nos torneios sintáticos, na entonação e na prosódia. Temos de reconhecer que não se fala no Recife como em Sorocaba, Bagé ou Manaus. E essas diferenças são percebidas com maior acuidade quando nos afastamos de nosso meio.

Fred Navarro passou por esta experiência. Pernambucano, radicou-se em São Paulo há quinze anos e, de lá, teve perspectiva suficiente para observar o falar nordestino. Dedicou-se então a um trabalho de levantamento vocabular, coletando, do Maranhão à Bahia, termos e expressões, algumas próprias de um único Estado, e outras compartilhadas pelos demais. O registro é eclético, com um corte diacrônico: expressões arcaicas e atuais e gírias recentes fazem parte do acervo, retiradas de dicionários, músicas e livros de autores famosos como Gilberto Freyre.

Com sensibilidade lingüística, o pesquisador descobriu as singularidades da fala nordestina, dentro da base comum de língua portuguesa. O livro constitui-se um resgate de nosso falar, registrando na palavra escrita recursos de oralidade. Os verbetes, junto com as definições, trazem letras de música e até receita de bolo. É uma leitura leve, em que vemos retratados a nós mesmos, enquanto falantes e ouvintes do dialeto nordestino."

Nelly Carvalho é professora do Departamento de letras da Universidade Federal de Pernambuco

Repercussão da primeira versão do livro

"Que este livro seja o começo de um caminho profundo. Se estivéssemos em um país mais sério e mais preocupado com a língua que fala, Fred Navarro seria retirado do mundo em que vive e colocado numa redoma para ficar pesquisando, pesquisando, pesquisando. E a sociedade, depois, agradeceria."

Professor Pasquale Cipro Neto (Programa Nossa Língua Portuguesa, TV Cultura, 11/4/1999)

"Poesia, invenção, subversão da linguagem, estabelecida, neologismos, a fundação diária de um língua viva, em movimento. Não estou falando de nenhum romance joyceano ou de um novo poeta revolucionário. Estou falando do dicionário de palavras e expressões nordestinas, de Fred Navarro."

Pedro Bial (Programa Espaço Aberto, Globonews, 11/3/1999)

"Escrito pelo jornalista Fred Navarro, Assim falava Lampião, um glossário de expressões nordestinas, engrossa as pesquisas que hoje são feitas a respeito do linguajar do povo brasileiro. Nesses estudos, descobre-se que muito daquilo que é desprezado pelas elites cultas como maneira errada de se exprimir tem ligações com o português arcaico."

Angélica Santa Cruz (Revista Veja, 5/5/1999)

"Esse tipo de trabalho é muito importante para estudantes e para o público em geral, por ser um registro da língua falada, daquilo que é dito no cotidiano. A falta de registro no Brasil, sobre todos os assuntos, é uma coisa impressionante. Este é o tipo do trabalho que merece parabéns, é um trabalho abnegado e um registro da maior importância."

Jô Soares (Programa Jô Onze e Meia, SBT, 16/11/1998)

"Este livro vale por juntar, em um só volume, um pouco do que já se publicou, desde Câmara Cascudo (RN), Mário Souto Maior (PE), Cego Aderaldo (CE) e Patativa do Assaré (CE), sobre o vasto mundo do palavreado que vai do sertão ao cais do Nordeste. Temos reuniões estaduais com termos baianos, pernambucanos, paraibanos e cearenses, mas nunca ninguém havia ousado reunir expressões de toda a região. É um belo registro o Assim falava Lampião."

Xico Sá (Folha de S. Paulo, 24/9/1998)

Algumas palavras e expressões

Capar o gato: 1. Fugir, dar no pé, rapar, no CE e na BA: "Juvenal acabou o namoro e capou o gato rapidinho." 2. Sair, ir embora: "A conversa está muito boa mas está na hora de capar o gato e ir para casa..."

Comer insosso e beber salgado: O mesmo que comer da banda podre, pegar a pior parte.

De caju em caju: Aqui e ali, uma vez ou outra, na BA: "Não era hábito dele, nem gostava mesmo de beber, no máximo um vermute ou uma cerveja de caju em caju, mas Deoquinha entornou dois copos daquele assobio-de-cobra como quem toma dois goles dágua (...)." Miséria e grandeza do amor de Benedita, João Ubaldo Ribeiro.

Na rosca da venta: Cara a cara, face a face, testa a testa.

Pegar-o-boi: Na BA é levar vantagem, fazer um bom negócio.

Samangar: Fazer nada, viver no ócio, vagabundar.

Prefácio de Marcos Bagno
Ilustrações de Cavani Rosas
Xilogravaruas de J. Borges
408 p. | 14 x 21 cm
ISBN: 85-7448-092-4

Dicionário do Nordeste, de Fred Navarro

Por: Plínio Bortolotti

Comecei a me amostrar no Twitter, postando algumas frases e expressões do "cearensês. Fiz algum sucesso: ganhei alguns elogios e seguidores que gostaram da presepada.

O fato é que a linguagem popular - ou nem tanto -  que eu reproduzo no Twitter, nem mesmo tive o trabalho de recolhê-la. Valho-me do mestre Leonardo Mota [Pedra Branca, CE, 10/5/1891-Fortaleza, 2/1/1948] e o seu Adagiário brasileiro e No tempo de lampião. O seu Leota era uma figura: abriu mão de ficar rico alisando o banco de um cartório, que lhe fora destinado, para palmilhar o sertão, serras e tabuleiros do Ceará e Nordeste, recolhendo as expressões que nasciam da boca do povo. Uso também um e outro "dicionário" de cearensês, todos devedores de Leonardo Mota.

Mas o introdutório - que o bom jornalismo refuga - é para dizer que um dos meus "seguidores" no Twitter [a quem eu também sigo] é um cidadão pernambucano, que paga algumas de suas penas na poluição, no trânsito e no clima destrambelhado de São Paulo. Seu nome é Fred Navarro.

Pois não é que o Fred é autor do Dicionário do Nordeste, um livro com mais de 5.000 palavras e expressões da nossa bela região?

E não é que Fred, a quem eu só conheço virtualmente, me manda o livro, que chega ligeiro-bala, via Sedex? E ele escreveu na dedicatória: "Com um abraço amigo e twitteiro e pernambucano".

É um livro, como diz, no prefácio o linguista [linguista é um sujeito que odeia o professor Pasquale] Marcos Bagno, no qual se encontra "o falar nordestino, recheado de metáforas que vão do mais lírico ao mais terra-a-terra".

Para escrevê-lo, Fred pesquisou mais de 200 livros, ouviu cerca de 100 discos com a temática nordestina, viu alguns filmes e demorou-se oito anos.

O livro é um dicionário e você não quererá lê-lo como se romance fosse, mas dá gosto abri-lo aleatoriamente, rir-se de algumas expressões que se já conhece, surpreender-se com outras que não se conhecia, espantar-se com a criatividade com que a língua é usada, transformada, refundida.

É uma obra de consulta; ganhou um lugar nobre na minha modesta biblioteca, ao lado do mestre Leonardo Mota. Vou visitá-los sempre.

[A propósito: a Estação liberdade fez uma edição caprichada do livro, ilustrado com xilogravuras e a bico-de-pena.]

Fonte: O Povo

O dicionário de Lampião

JOSÉ TELES

Jornalista, 47 anos, o pernambucano Fred Navarro lançou, em 1998, uma compilação de termos e expressões empregadas pelos nordestinos, num dicionário que intitulou Assim Falava Lampião. Mas não ficou por aí. Continuou pesquisando por mais cinco anos o linguajar dos Estados da região. O resultado está no Dicionário do Nordeste. Navarro, que atualmente, mora em São Paulo, concedeu entrevista ao Jornal do Commercio sobre seu livro, e as peculiaridades do quase dialeto nordestino

JORNAL DO COMMERCIO - Por que várias expressões contidas no seu dicionário não constam dos dicionários clássicos?

FRED NAVARRO - É puro desconhecimento, ou seja, ignorância mesmo. Se pensarmos nas outras regiões do Brasil, que obviamente também têm lá suas palavras e expressões próprias, dá para imaginar o tamanho do "rombo".

JC - No prefácio, Marcos Bagno ressalta como a imprensa é conservadora, não aceitando palavras que não façam parte da chamada língua culta.

FN - O problema é que herdamos dos portugueses esse gosto meio rococó pelo "falar difícil". Não é à toa que até hoje o nosso sistema judiciário utiliza uma linguagem tão esotérica, parece armênio. Nossa imprensa deveria ser mais coloquial, aproximando-se da linguagem do cidadão comum, que anda na rua, e que lê jornal.

JC - A importância desse livro não é apenas catalogar, como também registrar expressões que, por culpa sobretudo da TV, vão desaparecendo no Nordeste. Por exemplo, "bala perdida", em lugar de "bala doida", como se dizia até uns pouco anos atrás.

FN - É um trabalho de memória. Há palavras e expressões que se não forem registradas tendem a desaparecer. Nossos meios de comunicação em geral não dão importância a esse aspecto de nossa cultura, o que denota preconceito. É quase como se nossas elites tivessem vergonha de como o povo fala, quando deveria acontecer o contrário.

JC - No Sertão, principalmente, esta influência da mídia ainda é mais avassaladora. Expressões como "dar de corpo" (com o significado de "defecar"), que já foi usada no interior, não é mais falada, e nem está no dicionário.

FN - Vou incluí-la numa próxima edição, pode ter certeza... Mas discordo em parte de você, o Sertão talvez tenha sido menos influenciado do que o litoral. Penso que a juventude das grandes cidades é mais permeável ao linguajar televisivo do que a do interior. Em geral elas viajam mais, trocam mais informações do que nossos sertanejos.

JC - Chama atenção no livro é a quantidade de sinônimos para orgãos sexuais, e para o sexo em geral. É impressão, ou os nordestinos são mais desavergonhados ao falar de sexo?

FN - É impressão, pelo que pude investigar. Todas as línguas e dialetos têm enormes quantidades de palavras, gírias e neologismos para os órgãos sexuais. No nosso caso, a diferença é a quantidade de palavras que apela para o bom humor, a sacanagem, a picardia.

JC - Além de sexo, nomes de doenças são usados como se fossem palavrões. Isto se deve à miséria da região, onde essas doenças eram tão comuns que se tornaram xingamentos?

FN - Sim. As expressões derivadas de bexiga comprovam isso: bexiga-lixa, da bexiga, bexiguento, com a bexiga e outras.

JC - Sei que é cedo, mas você já pensa em uma nova edição ampliada. Ou melhor, continua coletando termos, expressões, para essa nova edição?

FN - Esse trabalho não tem fim, a língua é um organismo vivo e está se modificando a cada novo dia.

(© JC Online)
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Dicionário contém termos ignorados pela alta cultura

   Um trabalho de oito anos, com cerca de 200 livros lidos, 220 discos pesquisados, além de centenas de anotações tomadas em conversas no dia-a-dia, informações coletadas em todo o Nordeste. Assim o jornalista e escritor Fred Navarro chegou aos cinco mil verbetes do seu Dicionário do Nordeste (Estação Liberdade, 399 páginas), que será lançado hoje, às 19h, na Livraria Imperatriz, do Shopping Tacaruna. O dicionário é a edição ampliada de Assim Falava Lampião, de 1998, primeira compilação de termos e expressões nordestinas escrita por Navarro, que continha 2.500 verbetes.

Uma obra desse tipo redime um pouco o "descompasso, quase abismo, entre o que se produz nos meios acadêmicos em termos de conhecimento da língua falada pelos brasileiros e o que circula na sociedade em termos de idéias sobre essa mesma língua", conforme ressalta, Marcos Bagno, professor de lingüística da Universidade de Brasília. Uma constatação fácil. Basta folhear o livro para se deparar a cada página com vários termos que não constam dos dicionários clássicos da língua portuguesa feitos no Brasil.

A preocupação com a especificidade do linguajar regionais do País é antiga. Já em 1920 foi publicado O Dialeto Caipira, de Amadeu Amaral, dois anos mais tarde, O Linguajar Carioca, de Antenor Nascente, e, em 1931, A Língua do Nordeste, de Mário Marroquim, preciosas fontes para os estudiosos até hoje. Em anos recentes, têm surgido minidicionários de baianês, pernambuquês, porém nenhum com o fôlego do livro de Fred Navarro.

(© JC Online)
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Confira lista de verbetes

Ababacado - Panaca, leseira, palerma: "Vai ficar aí parado, com essa cara de ababacado?"

Bamburim - Jogo infantil consistindo em jogar uma moeda para o alto para ver quem consegue pegá-la antes de chegar ao chão

Casa de Noca - Lugar onde ninguém manda, casa-de-mãe-Joana. "Silêncio! Mas que barulho é esse? Isso aqui tá parecendo mais a casa de Noca!"

Dor-de-menino - Dores do parto, as contrações que antecedem o parto, de acordo com Luiz Gonzaga: "-Lula! Pronto, patrão! - Monte na bestinha melada e risque! Vá ligeiro buscar Samarica Parteira que Juvita  já tá com dor-de-menino..."

Estar pebado - Sem saída, enrascado, encurralado, na PB, CE e PE. "João está pebado... Comprou um carro novo e não está conseguindo pagar as prestações".

Filar - O verbo tem dois sentidos: 1. "Colar", receber dicas ou respostas de terceiros para fazer melhor uma prova ou um teste. "Só me salvei porque filei de Goretti o tempo todo". 2. Faltar à aula, ao trabalho ou a um compromisso, o mesmo que gazear, gazetar ou gazetear

Góia - Restinho do cigarro, bituca, coxia, piúba. "Você deixa o góia pra mim, por-favor?"

Invocado - Cheio de direito, brabo, brigão. "Puxa, nunca conheci na vida um cara mais invocado...". 2. Exagerado, em demasia. "Tinha um ciúme invocado, emburrado..."

Jebu - Sinônimo de chabu, fenônemo que acontece quando falha um dos fogos de São João

Kombeiro/kombista - Perueiro, motorista de kombi-lotação. A primeira é usada em PE e a segunda em AL

Lá e Lô - Frente e verso, um lado e o outro, um extremo e o outro. Batida lá e lô, no dominó, é quando uma pedra, com duas diferentes faces (terno e quina, por exemplo), encerra o jogo nas duas extremidades

Malocar - Esconder, subtrair, encafifar. "Quero saber quem malocou o meu isqueiro!"

Não-me-toque - Doce feito com tapioca de goma, leite de coco e açúcar, e assim chamado porque desmancha facilmente nos dedos.

Opaba - Na BA é o terreno à beira-mar que costuma alagar nos meses chuvosos. Palavra de origem tupi-guarani

Pabola - No CE é sujeito fandarrão, gabola, cheio de goga

Quartuda - Bunduda, com os quartos largos, em AL

Reboque - No NE, é sinônimo de prostituta

Sambocar - Tirar o pedaço, arrancar, extrair

Tá com a bixiga! - Significa "eu não acredito. Isso é impossível!". "O campinense ganhou de 5x0? Tá com a bexiga!"

Uma cebola / Uma pinóia - São equivalentes a coisa nenhuma. "Tia Eugênia, / que sentia muito mais alívio que saudade com aquela partida, / resmungava baixinho: / Visitar uma pinóia, dizem isso porque moram longe / e ninguém vai aparecer nessa tal de rua Bambina". "Nos rumos do encantamento", em Janela, de Marly Mota.

Vuco-vuco - 1. Confusão, fuá, bagunça. 2. Lugar apertado, rua estreita ou loja cheia de gente.

Xeleléu - Em Pernambuco é coisa ou pessoa sem importância, sem valor. "Que roupinha mais xeleléu, hein?

Zunir - Atirar alguma coisa em alguém, jogar pedras: "Zuniu a pedra e feriu o menino; Zuniu ovos podres no orador".
(© JC Online)
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Palavrório arretado

Dicionário do Nordeste, de Fred Navarro, reúne 5 mil expressões usadas da Bahia ao Maranhão

BEATRIZ VELLOSO

Leitor, atenção: o texto que vem a seguir não é bolodório. Entender o que virá nas próximas linhas pode ser de lascar o cano, mas não desanime. Caso não consiga acompanhar o raciocínio, não fique popeiro - fique peixe. O Dicionário do Nordeste, escrito pelo jornalista pernambucano Fred Navarro, esclarece todas as dúvidas. São cerca de 5 mil verbetes, usados da Bahia ao Maranhão. O livro, resultado de oito anos de pesquisa, é mais do que uma reunião de palavras e expressões: é um passeio pela história e pela cultura dessa região do país.

Para escrever o dicionário, Navarro (que nasceu no Recife, mas mora em São Paulo há 15 anos) fez inúmeras viagens ao Nordeste. Visitou cidades do litoral e do interior da Bahia, do Ceará, de Alagoas, do Piauí, da Paraíba. Recolheu verbetes até no arquipélago de Fernando de Noronha. Leu e consultou centenas de livros - de clássicos como o Dicionário do Folclore Brasileiro, de Câmara Cascudo, ou Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, a romances como Os Tambores de São Luís, de Josué Montello. E ouviu muita música: Mundo Livre S/A, Luiz Gonzaga, Alceu Valença, Mastruz com Leite, Lenine.

Bom humor é a marca registrada do vocabulário da região
O autor comprovou o que já suspeitava: o vocabulário do Nordeste é marcado, principalmente, pelo bom humor.  - O falar dos nordestinos tem uma picardia e uma malandragem que só encontram par nas gírias dos cariocas -, diz Navarro. Ele explica que muitas palavras consideradas erradas (como fruita ou avoar) existem, na verdade, desde os tempos do início da colonização do Brasil. - No sertão, onde houve menos contato com as novidades que chegavam ao litoral, o português clássico ficou mais preservado -, explica.

Outra curiosidade é o fato de que todos os povos que passaram pelo Nordeste em algum período da História, de franceses a ingleses, deixaram marcas no vocabulário. Em alguns Estados, até hoje usa-se brote para pãozinho ou biscoito - herança direta do brood holandês, que quer dizer pão. E mais: muitas expressões usadas no Sul e no Sudeste do país com determinada acepção surgiram no Nordeste - com significados opostos. É o caso de o cão chupando manga. - Em São Paulo o pessoal diz isso para descrever uma mulher muito feia. Mas no Nordeste o termo é usado para uma pessoa que sabe muito e é muito boa em alguma atividade -, explica Navarro. Em tempo: para quem não entendeu as primeiras linhas deste texto, bolodório quer dizer conversa mole, de lascar o cano significa difícil, trabalhoso, popeiro equivale a irritado e fique peixe é o mesmo que fique tranqüilo.

(© Revista Época)
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Trechos do Dicionário do Nordeste, de Fred Navarro

Abufelar
1. O sentido mais comum é irritar, pegar no pé, encher o saco: "Pare de me abufelar, está ouvindo?" 2. No CE, porém, tem também o sentido de pegar escondido alguma coisa, sem pedir autorização ao dono: "Ela não podia abufelar meu vestido sem me pedir! Ela vai ver só!"

Agoniado [u]
Com dor de barriga, apertado: "Ela chegou todfa agoniada e faz mais de meia hora que não sai do banheiro." Ver dor de necessidade.

Bicuda / bicudo
1. No MA significam bicanca, chute na bola com o bico da chuteira. 2. Em algumas regiões do Nordeste, bicudo é sinônimo de barbeiro, procotó, o inseto que transmite a doença de Chagas.

Brau
1. Na BA, é cafona, brega, segundo Caetano Veloso: "Preta Chique / Essa Preta é Bem Linda / Essa Preta é Muito Fina / Essa Preta é Toda a Glória do Brau"...

É lasca!
1. É dito quando se comemora um grande feito ou uma bioa not[icia: "Nosso time é lasca! Não perde pra ninguém há dois meses!"" 2. Ou justamente ao contrário, em tom de lamento: "É lasca! Levar o gol no último minuto é sacanagem, é azar demais!"

É lenha!
Na BA equivale a dizer "é lasca!", "é fogo!", "é uma parada!". O uso do verbo lenhar, no sentido de trepar, copular, tem origem na região Norte.

Embirar
Casar, juntar, unir: "Os pais faziam o arranjo, vinha o padre e embirava o casal de trouxas." Caetés, Graciliano Ramos, citado no Dicionário Aurélio. Embira é um arbusto que fornece fibra de boa qualidade.

Homeopatia
Em PE é sinônimo de cachaça, pinga, dengosa, pindaíba.

Lesado
No CE é igual a idiota, abilolado, besta como aruá, celé.

Leseira
1. Bobeira, idiotice, vagareza: "Não se pense, por isso, que na base do Dom Pedro só se fala leseira, camaradas." Um chope para a gordinha, Ronildo Maia Leite...

Malacas
Em PE e em AL quer dizer seios murchos, moles, caídos: "Dona Zefinha tem duas malacas enormes, não é?" Ver peitos.

Pinicão
Sinônimo de beliscão.

Torengo
Em PE é pessoa muito baixa, baeco, toco de amarrar besta.

Xeta [ê]
1. Um beijo mandado de longe pelos ares. 2. Provocação, charme, gesto de sedução.

(© Revista Época)
 
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