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Dicionário de Matutês

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Dicionário de Matutês

PREFÁCIO

A língua portuguesa começou a formar-se a partir do século XII, com a independência de Portugal. De lá para cá, como toda língua viva, ela não cessa de evoluir. Exemplificando: na boca do povo, a língua portuguesa não é um objeto estático, parado, que percorre séculos com as mesmas palavras, fonemas e construções sintáticas. A língua - todas as línguas - são dinâmicas, isto é, o povo que a fala, sabe quando certas palavras devem ser esquecidas, ou substituídas; sabe quando se precisa recorrer a palavras estrangeiras e adaptá-las para o português. E é esse vai-e-vem que permitiu aos estudiosos tentar explicar o que, tecnicamente, se chama "variante", ou também "dialeto". As "variantes" são formas diferentes de falar de uma mesma língua sem que por isso ela deixe de ser compreendida. Para exemplificarmos com bem clareza: o jeito de falar da cidade é diferente daquele falado na zona rural, no interior, nas cidades mais distantes do litoral.

Há uma ciência moderna - a Sociolinguística - que veio abrir novos caminhos para exemplificar essas difrenças de que falamos. Como? A língua é um fenômeno social e cultural, com relações muito complexas, ou seja, a sociedade influencia a língua e a língua altera padrões sociais. A língua é um instrumento marcador de classes sociais.

Não vemos sentido, portanto, em dizer que "o matuto", o homem do interior, fala errado. Não. Ele fala tão bem quanto nós da cidade ou das cidades grandes. Daí os gênios da literatura verem tais diferenças sob três aspectos: (1) diferenças no espaço geográfico (falares locais, variantes regionais); (2) diferenças entre camadas socioculturais (nível cultural, nível popular); e (3) diferenças entre os tipos de modalidades expressivas (língua falada, língua escrita, língua dos poetas e escritores etc.).

No livro do Prof. Dr. Marcos Nunes Costa, vocês encontrarão essas  chamadas "variantes" ou "dialetos", com a devida tradução. Porquanto, já que não podemos ir à origem de todas as palavras, contentamo-nos com algumas:

1. uma queda (despalatização) ocorre com o "lh". Ex: atalhar = ataiar, mulher = muié, trabalhar = trabaiar.

2. o mesmo "lh", além de cair (despalatização), pode também provocar uma apócope (ensudercimento) da sílaba final. Ex: filho = fi; milho = mi.

3. o sufixo "inho" passa a "im" (lei do menor esforço e também uma forma carinhosa ou afetiva de tratar pessoas e coisas). Ex: bonitinho = bonitim; Luizinho = Luizim; padrinho = padim.

Seria cansativo e impossível explicar todos os fenômenos presentes na obra do Dr. Marcos. A língua, como dissemos, está constantemente em mutação em todos os seus níveis: fonológico, morfológico, sintático-semântico. Todas as modificações correspondem a sistemas e subsistemas adequados às necessidades dos seus usuários.

Chamamos a atenção, também, para uma variante chamada "língua padrão" ou "língua culta". É aquela que se aprende na escola, é o dialeto de prestígio, e atua sempre como um modelo do ideal linguístico de uma sociedade. Daí o uso obrigatório para fins burocráticos, administrativos, educacionais, científicos etc. dessa variante padrão, que, como afirma Celso Cunha, "exerce sua ação coercitiva sobre outras variedades, transformando-se numa considerável força contra a variação".

Ainda o mesmo autor: "... ao lado da força centrífuga da inovação existe a força centrípeta da conservação". Guardemos, pois, numa frase muito conhecida entre os estudiosos da língua: "o matuto não fala errado, fala diferente".

Prof. Fernando Castim

Professor do Curso de Letras - UNICAP - Universidade Católica de Pernambuco.

ORELHA DO DICIONÁRIO DE MATUTÊS

Está muito longe de ser considerado, como surpreendente, este projeto, em termos de produção literária, do Prof. Dr. Marcos Nunes Costa ou... simplesmente Marcos de Hipona... Que Itapetim não fique de ciumeira!

O que está sendo classificado como projeto - porque as perspectivas de implementação da ideia são muito alviçareiras - é a edição deste Dicionário de verbetes, modos de escrever, expressões típicas do Nordeste, principalmente do linguajar do interior de Pernambuco, que o autor denomina de MATUTEZ - MATUTÊS... "para os quintos..." a preocupação com o rigor ortográfico!!!

Marcos Nunes é doutor em filosofia - a "sic dicta" Filosofia Pura - douto (a perda de uma consoante, o "R", faz crescer, ainda mais, a qualidade do título) em Santo Agostinho de Hipona (daí o ter chamado de Marcos de Hipona), em cujo pensamento se tornou um dos maiores especialistas em nosso contexto, através de sua consagrada Tese de Doutorado, algumas dezenas de publicações de livros e inúmeros artigos, conferências, orientações de Dissertações de Mestrado. Alargando um pouco mais, o (ab) uso de "jogo de palavras", Marcos tem uma "marca característica" que aparece inelutavelmente, em seus escritos, suas conferências, suas falas: é sua fidelidade às origens, seu "jeitão" de se expressar, suas metáforas e modos de se relacionar com todos e sua facilidade de fazer amigos.

Sua erudição, em Filosofia Medieval, foi enriquecida, pela compilação de algumas "gestas" de Biu Cassiano, lançadas em folheto intitulado "Bio Doido, o Filósofo de Inhanha", com repercussão nacional e internacional. Opúsculo singelo, mas com inconfundível riqueza, profundidade, atingida por poucos, e "marco" indelével da passagem da Filosofia, como acima definida, para uma nova concepção de Filodoxia, no sentido original de "amor pela glória", aqui, engrandecimento de uma região, "amor dos amantes das opiniões", mais precisamente, das concepções de alguns setores de uma população com sua "sabedoria de povo/ "folk lore", sem a preocupação de estabelecer princípios, explicitar conceitos ou emitir juízos de valor.

Marcos, o marco de Itapetim, está levando a um público diferente dos seus leitores costumeiros uma obra do mais alto valor, por se tratar de uma grande contribuição para o estudo de uma filosofia, filodoxia, filologia ou outra "filia", porque este Dicionário é, indiscutivelmente, uma obra de amor, podendo prestar-se a excelentes reflexões, objeto de pesquisa e, sem dúvida, "muitos panos para mangas" de toda categoria de leitor, de interessados na cultura, quer em sentido vulgar, quer em termos sociológicos de alma de um povo.

Que este livro de Marcos de Itapetim tenha o mesmo sucesso e aceitação dos escritos de Marcos de Hipona.

"Vige Maria", a "orelha", ao que parece, é de um "orelhudo".

Prof. Jorge Cândido - UNICAP - Universidade Católica de Pernambuco.

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