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Bandeira Tribuzi, poeta e escritor
Bandeira Tribuzi

Bandeira Tribuzi, pseudônimo de José Tribuzi Pinheiro Gomes, (São Luís, Maranhão, 2 de fevereiro de 1927 " 8 de setembro de 1977) foi um poeta brasileiro.

José Tribuzi Pinheiro Gomes, que usaria o nome literário de Bandeira Tribuzi, nasceu em São Luís do Maranhão no dia 2 de fevereiro de 1927. Filho de Joaquim Pinheiro Ferreira Gomes, comerciante português, e Amélia Tribuzi Pinheiro Gomes, brasileira descendente de italianos. Aos cinco anos de idade seguiu com os pais para Portugal. Pela vontade paterna seria um frade franciscano e para satisfazê-lo, apesar de não ter vocação sacerdotal, permaneceu nos educandários religiosos até a conclusão do Seminário Maior. Estudou nas cidades de Porto, Aveiro e Coimbra. Nessa última, em sua famosa Universidade, dedicou-se às Ciências Econômicas e Filosóficas.

Retornou a São Luís, em 1946, passando a exercer intensa atividade intelectual, sendo considerado por muitos o divulgador do modernismo no Maranhão. Trouxera da Europa um acentuado sotaque português e a leitura de Fernando Pessoa, José Régio, Mário de Sá Carneiro, García Lorca... A admiração pelo poeta Manuel Bandeira o levou a antepor o "Bandeira" ao sobrenome Tribuzi para formar o pseudônimo.

Casou-se, em 1949, com D. Maria dos Santos Pinheiro Gomes.

Foi poeta, novelista, romancista, dramaturgo, compositor (com 93 composições musicadas, incluindo o hino oficial da cidade de São Luís), ensaísta, crítico literário, historiador e professor. Trabalhou como jornalista em diversos órgãos de imprensa, criou a revista Ilha e dirigiu vários jornais, como o Jornal do Povo e O Estado do Maranhão. Foi funcionário público, na condição de economista e Chefe de Relações Públicas do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, e também Diretor do Banco do Estado do Maranhão. Tornou-se uma das figuras mais destacadas do planejamento econômico estadual, redigindo planos de governo e assessorando governadores. Representou o Maranhão no V Encontro Nacional de Secretários de Planejamento, em Porto Alegre, em 1973.

Sua estréia em livro foi em 1947 com a coletânea de poemas Alguma existência, edição do Autor, seguindo-se Rosa da esperança, Guerra e paz, Safra, Sonetos, Pele & osso, Breve memorial do longo tempo e, em edições póstumas, Poesias completas, de 1979, incluindo vários inéditos, Tropicália consumo & dor, de 1985 e Obra poética, de 2002.

Em maio de 1977, foi-lhe prestada, em comemoração ao seu cinqüentenário, uma homenagem da intelectualidade brasileira, em São Luís, da qual participaram figuras proeminentes da literatura, da sociedade e da política, em que se destacavam Ferreira Gullar, Odylo Costa, filho, Jorge Amado, Josué Montello e José Sarney, entre outros.

Bandeira Tribuzi morreu poucos meses depois, em São Luís, a 8 de setembro de 1977.

"Ao mesmo tempo que soube ser o intérprete das grandes angústias humanas no ritmo de seus poemas, Tribuzi foi a voz de seu povo e de sua província, com um modo de ser genuinamente maranhense.

Já acentuei que não devemos confundir, nos escritores da província, os provincianos e os provinciais. Os primeiros só existem em função da província, ao passo que os segundos têm a dimensão universal embora vivam na Província, e a cantem, e a celebrem, e nela reconheçam o recanto do mundo que não trocariam por nenhum outro.

Tribuzi é bem o poeta provincial por excelência, como Gonçalves Dias na Canção do exílio. Sua obra é uma convergência de problemas e sentimentos universais, a que o poeta empresta a beleza do seu canto. Creio que, sob esse aspecto, ninguém mais representativo do que ele, no quadro geral da poesia maranhense contemporânea."
(Josué Montello. "O legado literário de Bandeira Tribuzi". In: Tribuzi, Bandeira. Poesias Completas. Rio de Janeiro: Cátedra; Brasília: INL, 1979.)

Obras do autor

Alguma existência (1948)
Rosa da Esperança (1950)
Safra (1960)
Sonetos (1962)
Pele & Osso (1970)
Poesias Completas (1979)

Fonte: Pavilhão Literário Cultural Singrando Horizontes

A obra de Bandeira Tribuzi

Quando Bandeira Tribuzi, em 1946, retornou ao Maranhão, vindo de Portugal, após 16 anos de estudos em terras lusíadas, embora já houvesse acontecido a Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo, desde 1922, os maranhenses dela ainda não haviam tomado conhecimento. De sorte que a publicação e o lançamento de sua obra poética Rosa da Esperança, em 1948, foi um acontecimento marcante. Se, de um lado, enfureceu a ala conservadora, por outro, agradou deveras os poetas jovens, como Ferreira Gullar e Lago Burnett, dentre outros.

Marco referencial e divisor de águas, a obra em questão, estranhíssima para a época, rompia com os cânones e códigos métricos e vérsicos tradicionais que, mesmo muito tempo depois da consolidação, no eixo Rio/São Paulo, das conquistas e dos avanços do Modernismo, ainda eram românticos, parnasianos e simbolistas. Navegavam os ludovicenses na contramão da História da Literatura Universal.

Bandeira Tribuzi instaura, então, uma nova dicção poética em São Luís, entre poetas mais jovens, que logo aderiram aos recursos técnicos e imagéticos, que só trariam, como resultado, um salto qualitativo estético altamente promissor.

Rosa da Esperança estava permeada de livre-metrismo, ausência de pontuação e rimas, explosão da sintaxe tradicional, violação dos cânones e códigos do soneto clássico-neoclássico-parnasiano, subversão estrófica, métrica e rímica, supressão de letras maiúsculas, privilegiação da metonímia, em oposição à metáfora, o que bem expressa o caráter da modernidade da linguagem transracional.

Outro dado novo que Bandeira Tribuzi trouxe para o texto literário maranhense foi uma poesia voltada para o cotidiano, com o privilégio de mostrar a importância dos fatos aparentemente banais e corriqueiros, apresentando o poema como denúncia, irônico e satírico, de cunho, às vezes, paródico.

Em outras palavras, em 1948, Bandeira Tribuzi representou, para a Literatura Maranhense, o que Manuel Bandeira, Oswald de Andrade e Mário de Andrade representaram para a Literatura Brasileira, entre 1922 e 1933, ou seja, como pioneiro introduziu no panorama da cultura literária maranhense as melhores conquistas do Modernismo. Esse legado mereceu as assinaturas de poetas de peso como Maiakovski e Khlebnikov, na Rússia; Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, em Portugal, e Manuel Bandeira, no Brasil.

Aos 21 anos de idade, Bandeira Tribuzi estava afinadíssimo com a revolução estética que acontecera na Rússia, na Inglaterra, na França, na Alemanha e, particularmente, em Portugal.

Ousado, inovador, satírico, mordaz, demolidor, em Rosa da Esperança, à maneira de um Maiakovski, Bandeira Tribuzi se propõe a desmistificar a aurea mediocritas laudatória e bombástica brasileira e, para tanto, vale-se do recurso paródico. Exemplos típicos são os poemas sobre Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, publicados nesta edição Guesa, sendo que o primeiro aponta para um poema de Maiakovski, que trata do suicídio de Iêssenin e da maneira como certos poetas o saudaram durante o enterro; e o segundo é uma sátira ao E agora, José?

Dono de uma obra multiforme, rica, versátil e definitiva, entre os 19 e os 50 anos, Bandeira Tribuzi tem, em sua poesia, aquela carnalidade, aquele fogo, aquela singularidade do espírito do homem da América Latina. Em sua obra literária da última fase, principalmente a de Consumo&Dor há a comunhão, também, com a poesia metafísico-social dos Quatro Quartetos, de T. S. Eliot.
Mário de Andrade

Desapareceu

Ninguém o esquece - todos o procuram
Perguntam-nO às esquinas aos soluços
Perguntam-nO à garoa e às rosas claras
Vão a S. Paulo Vão a Lopes Chaves
Perguntam-nO às manhãs Folheiam livros
Rondam retratos falam e reúnem-se
Os oradores engulham seu nome
O sorriso parou em muitas faces
Os amigos estranham seu silêncio
proclamam que desceu para os infernos
A cidade procura-O entre o frio
Ele partiu - Não chores Josefina
este vazio de carícia e ausência
O Mário foi-se embora pra Pasárgada
(p. 64)

Soneto

O tempo cansou a vida
a vida se abandonou
o abandono não bastou
e uma florzita se lamenta
Secou a fonte que existia
a madrugada emurcheceu
o pão faltou
e o pensamento
Depois ruíram as casas
as famílias a tradição
sobrou um rato para Drummond cantar
O poema de Drummond salvou um homem
o homem amou e reconstruiu a vida
qual a raiz da vida: o rato ou Drummond?
(p. 64-65)

Soneto

Amo-te e basta Pequeninos
vamos os dois de mãos dadas e
com a metade da vida que sabemos
construímos a terceira real e certa.
Depois minha mão busca em tua cintura
resposta para a angústia metafífica
que resiste apesar-de E surpreende
uma criança duvidar de ceticismo
Vem de teus olhos tal ternura ou malícia
que vou por uma estrada cambaleando
e como é doce não saber da vida
Ou então permaneço quão diverso
daquele que minha mãe teve coragem
de parir para ti um certo dia
(p. 65)

Soneto

Um homem desceu ao mundo
na Piedade
com duas fábricas ao lado
e a cidade depois da curva
No dia em que ele nasceu
um automóvel descuidado
matou Antônio
(Ficar até ao fim é privilégio)
O homem passou da curva
e das fábricas ao lado
para dar o seu recado
Mas o Diário de Notícias precisava necrológio.
Daí que ele morresse simultâneo
ao surgir de outro para a continuação
(p. 65-66)

(Tribuzi, Bandeira. Obra Poética. São Paulo: Ed. Siciliano, 2002.)

Poema

Entrego minha alma ao céu de Abril e à rebeldia.
Descanso meus passos na sombra perdida no vão da memória.
Meus braços repousam em teu corpo claro e azuis pensamentos
florescem dos olhos afeitos enfim à feição do milagre.
O silêncio surge: - farrapo de nuvem cor-de-rosa e débil
e o ouvido apreende a canção sem rumor que em teu rosto perpassa.
Maria claríssima de carne completa Meu corpo duplo
se perde em teus olhos teus seios teus lábios se encontra em teu sexo
(p. 47)


Opiniões biográficas & críticas sobre o poeta Bandeira Tribuzi

Bandeira Tribuzi é o nome literário de José Tribuzi Pinheiro Gomes, que nasceu em São Luís, Maranhão, Brasil, em 2 de fevereiro de 1927, cidade-ilha em que também morreu, no dia 8 de setembro de 1977, aos 50 anos. Filho do português Joaquim Pinheiro Ferreira Gomes e da maranhense Amélia Tribuzi Pinheiro Gomes.

Fonte: guesaerrante

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