27.07.2010
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Pai Arraia
Um sertanejo universal com ares de mito nordestino
"Nunca me preocupei com rótulos. O rótulo de radical, conciliador, não tem nenhum sentido para mim, como não tinha sentido me chamarem de comunista no passado. O que importa é a prática política; o que importa são os posicionamentos que se tomam ao lado de determinadas camadas sociais, em defesa de teses que interessam à nação como um todo". A declaração emitida por Miguel Arraes logo após retornar de um exílio de 15 anos, por força da ditadura militar implantada no Brasil em 1964, dá o matiz dessa personalidade ímpar que pontificou na recente história política do País. Um cearense que a partir de Pernambuco inscreveu seu nome nos anais da história da política brasileira do século XX, um mito para os sertanejos que cultuam figuras lendárias como padre Cícero, Frei Damião entre outros santos nordestinos.
Por LIANA LACERDA
redacao@nordestevinteum.com.br
Miguel Arraes de Alencar é o típico cidadão nordestino, cuja tradição de luta ultrapassa os limites da mundivivência local para se tornar um homem universal em cuja ação militam o revolucionário e o diplomata, que soube costurar acordos políticos palacianos ao tempo em que, de igual modo, se rebelava no momento em que os militares castravam a liberdade dos brasileiros com um golpe de Estado. Alteou-se em defesa do seu povo e dos postulados da democracia ao ser eleito governador de Pernambuco em 1962, dois anos antes da débâcle do Estado de Direito entre nós. Exilado, continuou a articular os caminhos que fizeram o retorno da democracia ao Brasil 20 anos depois. Não tergiversou, não quedou genuflexo ante o tacão da bota opressora. Arrostou os óbices de um exílio em que lhe eram estranhos povo e língua. Ao retornar, cabeça erguida, as populações nordestinas e o povo brasileiro receberam-no como herói nacional. De norte a sul do Brasil o ícone sertanejo da luta pela democracia era ovacionado nas praças públicas. Novamente governou o seu Estado em três mandatos e, posteriormente, elegeu-se o deputado federal mais votado do Brasil. Enfim, retomou o posto que lhe fora usurpado pelo arbítrio.
O cearense que a partir de Pernambuco se faz ícone da Política brasileira
Nascido no dia 15 de dezembro de 1916, na serra do Araripe, no Ceará, da estirpe dos Alencares, que deram ao Nordeste revolucionários como Bárbara de Alencar e o filho, Tristão, Miguel Arraes de Alencar veio ao mundo com o destino de também contribuir decisivamente no processo de libertação do seu povo dos sistemas opressores ditados pela política do atraso onde o coronelismo agrário ainda detinha o poder e o mando. Apesar dos vales férteis do Cariri, aquele pedaço de terra araripina onde nascera impunha ao autóctone uma vida de difícil sobrevivência. Se as intempéries do clima adusto não lhe tornavam a vida fácil, a adustez maior se fazia sentir na ação sócio-econômica e política das lideranças que ao longo da história espezinhavam as classes menos favorecidas do povo, num regime de trabalho agrário quase escravocrata. Nesse ambiente de grandes sofrimentos passou Arraes os primeiros anos de sua vida, o que sem dúvida marcou profundamente sua personalidade.
De origem modesta, o menino Miguel deu os primeiros passos observando a labuta diária daquela gente humilde e resistente como a aroeira brava. Ali, na serra do Araripe, iniciou a estruturação de um caráter férreo, forjado na bigorna do trabalho e da esperança em melhores dias para o seu povo. Levava uma vida simples como todo os meninos do sertão, mas no caso dele, tinha os olhos postos no infinito, acalentava sonhos que iam muito além daquela pequena cidade. E foi em busca desses sonhos, que o menino Arraes mudou-se para a cidade do Crato, onde concluiu o ensino médio.
Tempos depois a família teve que mudar-se do Ceará para Pernambuco com o fito, sobretudo, de proporcionar melhor formação intelectual para os jovens. Seus pais, Maria Benigna Arraes de Alencar e José Almino de Alencar e Silva eram agricultores de poucas posses, mas cultivavam a esperança de dar um futuro digno aos seus sete filhos. Quanto a Arraes, não contentando-se com permanecer na capital pernambucana, decidiu ir tentar a sorte no Rio de Janeiro, então capital da República, centro político e intelectual do País. A aprovação na Faculdade de Direito da Universidade do Brasil (atual UFRJ), no Rio, indicou-lhe que estava no caminho certo. Paralelamente a vida acadêmica, Arraes logrou êxito em concurso público e passou a trabalhar como Escriturário do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Junto com essas conquistas, surgiram também oportunidades que lhe abriram as portas para o ingresso na vida político-partidária, o que efetivamente ocorreu quando retornou a Recife e iniciou a militância que o levou a ser uma figura basilar nos destinos do Nordeste e do Brasil em determinada quadra da história do nosso povo.
Um ano após tomar posse no IAA, Arraes foi promovido a Assistente do Diretor de Fiscalização, onde permaneceu até 1941, quando galgou ao cargo de Chefe de Secretaria, ascendendo em 1943 a Delegado Regional, posto que renunciou em 1947, para assumir a Secretaria de Fazenda do Estado de Pernambuco, a convite do então governador Barbosa Lima Sobrinho, com quem trabalhava no Instituto.
Em 1944, casou-se com Célia de Souza Leão, de cuja união nasceram oito filhos. Depois de 18 anos de casado, Arraes ficou viúvo. Em 1962 casou-se com Magdalena Fiúza, com quem teve mais dois filhos.
Dedicado à carreira política, foi eleito deputado estadual pelo Partido Social Democrático (PSD), em 1950. Em 1959 assume novamente a Secretaria da Fazenda, desta vez no governo Cid Sampaio. No mesmo ano vence as eleições para a Prefeitura de Recife. A trajetória política de Arraes, marcada por corajosa e permanente defesa dos ideais de justiça e equilíbrio social para o povo, começa a ser projetada a partir da administração de Recife. O político governava em prol das maiorias que ao longo da história foram relegadas a plano secundário na ação administrativa dos governantes. Na seara política, os sem voz passaram a ter vez.
As prioridades na administração de Arraes eram os investimentos amplos feitos em educação e cultura, dando ênfase à alfabetização de crianças e adultos, utilizando o método Paulo Freire. Em 1960, começaria efetivamente a funcionar o Movimento de Cultura Popular (MCP), que tinha como objetivo difundir as manifestações da arte popular regional, bem como potencializar o esforço de alfabetização, criando para tanto um sistema de núcleos em favelas e bairros pobres. O povo estava sendo chamado a participar direta e concretamente a ser sujeito de sua história. Era estimulado a se envolver de várias maneiras, mesmo quando analfabeto, à produção do ambiente universitário, no intuito de elevar o nível cultural das massas trabalhadoras. Arraes plantava expectativas de dias melhores, ampliando o horizonte de compreensão quanto ao sentido e necessidade da profissionalização, da pesquisa científica e do desenvolvimento da cultura.
Na linguagem sertaneja Arraes transformou-se no solidário "Pai Arraia"
O povo nordestino nutria e ainda dispensa grande admiração por Miguel Arraes. O povo pernambucano o amava e a ele ainda dedica imensurável gratidão. Nos rincões mais distantes das zonas urbanas, muitas pessoas guardam uma quase devoção sebastianista pela figura do líder nordestino. "Pai Arraia", era assim que o povo o chamava carinhosamente e ainda o chamam muitos dos que o conheceram em suas andanças pelas zonas rurais pernambucanas, em campanhas políticas ou inaugurando obras. "Arraia" seria um plebeísmo lingüístico que o sertanejo usa para manifestar o carinho pelo Dr. Arraes, também por ser uma palavra mais fácil de pronunciar, segundo os vícios de linguagem dos sertanejos.
O relacionamento de Arraes com o povo era de proximidade. Os eleitores se sentiam íntimos de seu candidato. Isso era notado constantemente no conteúdo das cartas que chegavam endereçadas a Arraes. Agradecimentos, pedidos de dinheiro emprestado e até a forma como esses empréstimos seriam pago. Essa era a forma com que o povo via Arraes, ou seja, como um homem que podia tudo, e que faria tudo por eles. Um verdadeiro milagreiro do povo.
Andar em feiras onde a aglomeração de pessoas era grande era um transtorno para Arraes. Tumulto e correria eram cenas que não podiam faltar em sua caminhada no meio do povão. Tomates para um lado, barracas para o outro, tudo para ver e tocar no homem que o povo admirava, desfazendo a história de que um mito não podia ser tocado. Arraes era tocável. Arraes era do povo. Sua relação de identificação e sensibilização diante dos menos favorecidos derrubava as barreiras que normalmente existem entre o político e o eleitorado.
Mas o líder continuava um homem simples, não usava o carisma para se promover. Um exemplo era a relação dele com a religião. "Ele era religioso, coisa que pouca gente sabia, mas por quê? Ele não ia a enterros. Passava a noite na casa da pessoa falecida, mas ao enterro ele não ia. Não ia à procissão, porque achava que iam interpretar como uma atitude política. Então, ele era um homem assim, muito diferente, de fato. Eu acho que essas atitudes mostram uma pessoa de personalidade diferente", observa emocionado Luiz Cláudio Arraes, filho, em entrevista à Nordeste VinteUm. Segundo relembrou, Miguel Arraes "foi um homem sensível e emotivo...".
Dificuldades de governo agravadas com a opção pelos pobres
Considerado pelos opositores políticos como um candidato eleito pelos "pés de poeira" (apelido dado ao povão), sua maneira de administrar em favor do povo, levantava poeira e incomodava como um grão de areia nos olhos dos políticos, que não tinham o povo como prioridade em seus planos de governo. A opção de lutar pela melhoria de vida dos excluídos não foi uma situação fácil para Miguel Arraes. As dificuldades existentes para qualquer governo se agravaram quando se tratou de gerar benefícios para a administração de Arraes. Sua estratégia política era contrária a todos os governos anteriores ao dele. Era voltada para as necessidades da população de baixa renda. O que soava como uma afronta ao governo federal. Vários vetaram verbas destinadas ao governo de Arraes. O que acabou criando problemas na gerência dos projetos governamentais. Em alguns momentos faltou dinheiro para abastecer os hospitais, verbas para pagar funcionários, ocasionando transtornos não só ao seu governo, mas também ao povo que esperava por melhorias.
A jornalista e escritora Tereza Rozowykwiat, autora do livro "Arraes", contou sobre a dificuldade que o ex-governador enfrentou durante o terceiro mandato. "O presidente era Fernando Henrique Cardoso, e deixou Pernambuco a pão e água. Não tinha dinheiro para nada. Nenhum projeto de Pernambuco era aprovado pelo governo federal", contou Tereza. Na época, todos os jornais pernambucanos questionavam porque Arraes não tinha o apoio do governo federal. A jornalista conta que Arraes se viu obrigado a privatizar a Companhia Energética do Estado. Os estados que privatizavam suas companhias receberam verba do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A verba de Pernambuco não liberavam. "Fui fazer uma matéria na sede do BNDES, no Rio de Janeiro, para saber o porquê de não liberarem. O funcionário respondeu que estava cumprindo ordens superiores. Só podiam ser ordens de Fernando Henrique. Pernambuco não tinha dinheiro nem para pagar a folha. Não tinha verba para comprar gases e esparadrapos para os hospitais, comida para os presos. Não tinha dinheiro para nada. E sem dinheiro não se podia fazer muita coisa pelo Estado. Então ele perdeu a eleição", comenta a jornalista.
Arbítrio fortalece imagem do defensor das liberdades
Em 1962, Arraes ganha a eleição para governador de Pernambuco. Governa o Estado durante dois anos sob intensa pressão das forças conservadoras. Em 1964, deflagrado o golpe de Estado pelos militares e cassadas as liberdades públicas o país mergulha em um caos institucional. Tropas do IV Exército cercam o Palácio das Princesas, sede do governo estadual, e Arraes recebe um ultimato para renunciar ao cargo, caso contrário seria preso. Altivamente ele recusa-se em cumprir as ordens alegando "não trair a vontade dos que me elegeram". Como consequência, foi deposto, encarcerado no 14º Regimento de Infantaria do Recife. Posteriormente levado para a ilha de Fernando de Noronha, onde permaneceu por onze meses, passaria na seqüência também pelas prisões da Companhia da Guarda e do Corpo de Bombeiros, no Recife, e da Fortaleza de Santa Cruz, no Rio de Janeiro.
A comunicação de liberdade veio através de habeas corpus, emitido em 25 de maio de 1965. Orientado por seu advogado a exilar-se, sob pena de voltar a ser preso caso permanecesse no Brasil, solicitou asilo político à Argélia, para onde seguiu pouco depois. Durante o exílio, foi condenado à revelia, no dia 2 de março de 1967, pelo Conselho Pernambucano de Justiça da 7ª Região Militar, à pena de 23 anos de prisão pelo crime de "subversão".
Em 1979, todos os exilados políticos são beneficiados com a anistia. Após o exílio, retornado ao Brasil, Arraes tomou como um dos seus objetivos a continuidade da luta interrompida pelo regime de força implantado no País. Dispôs-se, então, liderar aqueles que igualmente acreditavam em uma nação mais justa e mais solidária, onde a riqueza fosse distribuída de modo equânime e o desenvolvimento econômico caminhasse pari passu com crescimento social do povo. O seu entusiasmo tinha uma razão de ser já pela vocação de liderança que sempre teve, mas também pelo fato de haver sido recepcionado pelas populações com honras com as quais nenhum outro político exilado foi. No Largo de Santo Amaro, em Recife, por exemplo, foi realizada uma manifestação de boas-vindas onde uma multidão o recebeu como herói. Emocionado, ele falou ao povo reunido e citou o poeta Carlos Drummond de Andrade: "Tenho duas mãos e o sentimento do mundo."
Arraes, sem dúvida, era uma personalidade carismática e a auréola de mito que foi criada em torno dele somente cresceu com o exílio. O retorno ao Brasil mostrou a força desse carisma político e contribuiu para sedimentar o respeito que por ele já nutriam as populações nordestinas, especialmente o povo pernambucano. Seu jeito matuto de falar, a serenidade da expressão e a firmeza dos gestos faziam dele essa figura admirada. Até porque ele era definitivamente o tipo de governante cujas atitudes eram tomadas em função das necessidades e dos anseios do povo.
Para dar continuidade a ação política interrompida em 1964, Arraes liderou a refundação do antigo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), a cuja sigla foi acrescentada a letra "P" de partido, antes proibido. Para tanto, uniu-se a outras lideranças do tempo em que iniciou a militância e que haviam permanecido no Brasil. Ao partido agregaram-se também novos nomes que surgiram no cenário partidário durante a ditadura, e que haviam lutado pela anistia, ou pela derrubada do poder militar.
Em 1986, ainda filiado ao PMDB, Arraes vence as eleições para governador de Pernambuco com 53,5% dos votos. Em 1990, juntamente com outros políticos insatisfeitos com os rumos do PMDB, transfere-se para o Partido Socialista Brasileiro (PSB), sendo eleito o deputado federal mais votado do Brasil. Consolidado como a principal liderança política de Pernambuco e um dos grandes nomes da Política no Nordeste, aos 78 anos, Arraes disputa o governo de seu Estado pela terceira vez e sagra-se governador pelo voto do povo, o qual como que dando um sentido de vingança da história, faz do então governador cassado em 1964 a liderança imbatível nas urnas pernambucanas. Durante o terceiro mandato como governador, Arraes desenvolveu um trabalho de resgate dos valores de uma sociedade solidária, e intentou fazer do governo um instrumento de transformação social.
Um conselheiro político na África
Miguel Arraes deposto
Expulso da Pátria, humilhado pelas forças que tomaram o poder de assalto, Arraes foi encontrar abrigo em um país de costumes e cultura completamente diferentes da sua: a Argélia. Ironia do destino: dois dias após a chegada a Argel, a capital, descobriu que seu anfitrião não era nada democrático e estava a liderar outro processo golpista. Seu novo lar também não era uma democracia.
Ainda assim a Argélia foi por alguns anos um ponto de apoio aos diversos grupos de revolucionários que fugiam da repressão em seus países de origem. Tal situação favorecia o intercâmbio de culturas e criava um ambiente de debate, facilitando o desenvolvimento de ações políticas.
Mesmo fora de seu país, Arraes não deixou a política de lado. Durante o exílio, seu espírito de liderança e seu jeito sereno conquistaram a confiança de várias lideranças da África. Pessoas politicamente influentes frequentavam sua casa, e contavam com sua participação para traçar estratégias e articular alianças, para a reconstrução de seus países. O romancista Gabriel Garcia Márquez, o senador italiano Helio Basso, da Itália, Enrico Berlinguer, presidente do PC italiano e o pessoal da França, entre muitos outros, mantinham contatos e correspondência com Arraes. Uma fusão de pensamentos e ideologias entrelaçados em direção a um único objetivo: a luta por igualdade e melhoria para o povo de sua nação. Bom ou ruim, o exílio deu a Arraes a oportunidade de fazer esse intercâmbio cultural e intelectual ao lado de expoentes da política internacional.
Na África teve uma maior aproximação com os líderes que lutavam pela independência das colônias portuguesas naquele continente. Manteve um relacionamento mais próximo com revolucionários de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, o que era facilitado devido a língua comum desses povos, a portuguesa. O seu carisma conquistou o líder da Guiné Bissau, Amílcar Cabral, que batizou a residência de Arraes como a "Meca dos revolucionários".
Arraes além de manter um bom relacionamento com o continente africano, durante os 14 anos que ficou exilado, criou relações próximas com a Europa, por intermédio dos partidos progressistas. Foi muito próximo, por exemplo, do Partido Socialista de Portugal, que combatia a ditadura daquele país e tentava restabelecer as relações entre Portugal e Argélia. Ao retornar ao Brasil, Arraes continuou mantendo contatos com o povo africano. Em 1984, quando a Argélia completou 30 anos de revolução, o ex-governador voltou ao continente africano para as comemorações das conquistas africanas. Depois do falecimento de Miguel Arraes, em 2005, o governo argelino inaugurou uma praça na capital do país em homenagem ao grande nordestino.
A emoção de um homem do povo identifica o benfeitor
Outro fato curioso da vida de Arraes foi durante seu enterro. Caetano Veloso, que é grande amigo da família, foi ao velório e ficou muito transtornado. Por ter uma família com a mesma origem do sertão, se identificava com a história de vida de Arraes. "Ao ver o povo passar próximo ao caixão, ele disse que o povo não olhava para meu pai, só diziam geralmente coisas religiosas: "Fique com deus" "Descanse em paz". Ele disse que chegou um velho que parecia muito emocionado, ficou concentrado perto do caixão. Então, o velho tirou o chapéu e disse somente "Muito obrigado", explicou o filho Luiz Claudio Arraes, contando que Caetano ficou muito impressionado por presenciar aquela cena. "Você veja que não fizemos um velório político. E um homem do povo vai prestar sua homenagem espontaneamente. Foi absolutamente espontâneo. E foram horas e horas. Mas isso era um povo que tinha seguido um homem, que quase de maneira obsessiva só pensava nesse povo. E ele conseguiu, na medida do possível, nos dois últimos governos dele, atender os reclamos do povo", disse Luiz Cláudio.
As principais características de Arraes eram a humildade e a serenidade que ele transparecia, lembra Luiz. "Meu pai jamais precisou de cabo eleitoral e sempre dizia que o importante na vida é mobilidade e independência", observa o filho, ressaltando que a independência e liberdade foram fundamentais na vida do seu pai. Seu exemplo de vida, de um homem que saiu do sertão para virar doutor, serviria de inspiração para proporcionar qualidade de vida à população, que acreditava em sua carreia política, em seu amor incondicional pelo povo.
Memória preservada para próximas gerações
No mês de agosto vindouro completam cinco anos da morte de Miguel Arraes. Ele foi internado no dia 16 de junho de 2005, com uma suspeita de dengue. Sua saúde começou a ficar mais debilitada em razão de arritmia e a consequente queda de pressão. Diante do estado clínico delicado, Arraes foi entubado e passou a respirar por aparelhos. Também foi detectada uma infecção pulmonar. Arraes faleceu após 59 dias de internação.
O corpo do ex-governador foi velado no Palácio do Campo das Princesas, sede do governo estadual, no dia 13 de agosto. O cortejo fúnebre, seguido por milhares de pessoas que cantavam antigos jingles de campanhas políticas de Arraes, saiu no final da tarde do dia 14 de agosto em direção ao Cemitério de Santo Amaro, no Recife, onde foi sepultado.
Um ano após sua morte, no dia 15 de dezembro de 2006, data que se comemorava os 90 anos de seu nascimento, a jornalista pernambucana Teresa Rozowykwiat, lança em Recife, o livro "Arraes", a primeira biografia autorizada sobre a vida do mais expressivo político nordestino da segunda metade do século XX. A autora baseou-se em informações exclusivas repassadas pela viúva, Magdalena Arraes, principalmente sobre o período em que viveu no exílio após o golpe militar de 1964. O livro aborda fatos dos quais apenas a família tinha conhecimento, bem como detalhes da personalidade dele, que só os mais íntimos conheciam.
Em 2007, Luiz Claudio Arraes publicou o primeiro volume da obra intitulada Tempo - o de dentro e o de fora, uma narrativa sobre a vida do ex-governador. Dois anos depois lança o segundo volume subordinado ao título Todo diálogo é possível - conversas com meu pai, Miguel Arraes. A obra é uma coletânea de lembranças de frases, fatos históricos, momentos compartilhados entre pai e filho, escrita pelo médico infectologista.
Araripe homenageia o filho ilustre
Miguel Arraes, apesar de haver construído uma trajetória política brilhante em Pernambuco, é o filho mais ilustre da cidade de Araripe, no Cariri cearense. Ele sempre manteve os laços históricos com a sua terra natal, tanto que ao retornar do exílio, uma das primeiras visitas que fez foi a Araripe. O povo da cidade, pelos seus representante vai agora prestar-lhe justa homenagem com a construção do Memorial Miguel Arraes. O objetivo é a preservação de um rico acervo que pertenceu ao líder político. A ideia do prefeito José Humberto Germano Correia constitui um reconhecimento à importância do grande líder nordestino na história política do País. A obra será iniciada ainda neste ano, com a perspectiva de concluída até o final deste ano. Recentemente, a viúva de Miguel Arraes, Magdalena Arraes; e o filho dele, Mauricio Arraes, residentes em Recife (PE), estiveram em Araripe e foram alvo de homenagens em evento que ocorreu no Cine Teatro da cidade, que leva o nome de Miguel Arraes. Houve apresentação de um conserto de música, peça teatral e um vídeo retratando a trajetória política do cearense que lutou contra a desigualdade dos nordestinos e pelas liberdades políticaa durante toda sua vida.
Instituto Miguel Arraes
Para homenagear o marido famoso com ares de mito nordestino, a viúva Magdalena Arraes criou o Instituto Miguel Arraes. O objetivo primordial é preservar a memória do homem público, mas também apresentar o cidadão patriota e o ser humano solidário com os seus semelhantes, que fez da atividade política não um caminho para se locupletar, mas um instrumento para servir.
O jornalista e chargista Lailson de Holanda selecionou mais de 500 charges feitas por ele durante mais de 30 anos sobre o governador Miguel Arraes. Os trabalhos representam o político em diferentes momentos da trajetória dele, desde a chegada do exílio político. Lailson também lançou um livro com a coleção de suas melhores charges sobre Arraes, o qual intitulou de "Arraestaqui". O site ainda está em fase de construção, mas pode ser encontrado alguns arquivos históricos importante da vida de Arraes como cartas, fotografias e anotações feitas pelo mesmo.
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