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30.07.2010

Tom Zé: Como a herança da cultura ibérica e da educação aristotélica definiram a linguagem musical nordestina

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No ritmo do "analfatóteles"
 
 
O compositor conta como a herança da cultura ibérica e da educação aristotélica definiram a linguagem musical nordestina

Luiz Costa Pereira Junior


 
Antônio José Santana Martins é sertanejo de Irará, interior da Bahia. Só virou Tom Zé bem depois, adulto em Salvador. Quando nasceu, em 1936, Irará tinha só 3 mil pessoas. Mas ele lembra como hoje da vivacidade do lugar, a conversa de loja, o jantar a candeeiro, a festa da Padroeira e o vizinho bêbado, que entoava milongas à sua porta. "Havia a delicadeza da língua nas músicas do folclore que todos cantavam", lembra.

Por mais de uma vez, conciliou planos opostos: a herança moçárabe com a educação aristotélica ("eu era analfatóteles"); o folclore com a música experimental; a língua do século 16 com a atual. "Busco o paradoxo, a contrariedade, o caminho torto".

Mais do que busca, herança. Tom Zé diz que, agora, com o novo Pirulito da Ciência, percebeu que o veículo para sua música não é CD, MP3 ou outra tecnologia de audição, mas o DVD: suas canções só se concretizam se encenadas. Considera herança ibérica o fato de seu verbo ser carente de performance - e vice-versa. Formado em música, foi um dos pais do Tropicalismo. Desde então, come pelas beiradas. Ganhou projeção mundial nos anos 90, descoberto por David Byrne (ex-Talking Heads). Cultiva um público jovem e crê que a linguagem revela o modo como o brasileiro pensa e age.

O nordestino, seu modelo à mão, seria a evidência mais completa disso.

O que o Pirulito da Ciência significa em sua carreira?
O Charles Gavin [ex-Titãs e produtor musical] me convenceu a fazer uma retrospectiva. Só depois percebi que o formato DVD mostra uma coisa que não sabiam a meu respeito: que toda canção minha é representada, não apresentada. Compor não é o trabalho completo, a canção precisa das roupas, da atuação dos músicos e do movimento cênico com os instrumentos. Faço uma encenação a cada música.
 
Qual a mais memorável?
A primeira que fiz para ser encenada, A Carta. Foi em 1972, eu me apresentava num sindicato de uma cidade do Rio Grande do Sul. Na hora, o violão se tornou cavalo, mulher, numa interpretação libidinosa de uma letra inocente como a de A Carta. A plateia ria aquele "riso da forca", nervosa.

Por que é importante encarar a encenação como parte da música?
Eu tinha uns 15 anos e a gente jantava em Salvador com meu tio Fernandes, que chegara da Tchecoslováquia. Ele era um deputado comunista, grandão como todos os Santana - menos eu, que sou baixinho. "Os tchecos não têm o menor acanhamento de dançar", e dizendo isso, não sei o que deu nele, tio Fernandes imitou um passo qualquer dos tchecos. Fiquei transtornado. Vendo o movimento daquele homenzarrão, pirei com a possibilidade de o corpo ser agente da conversa. Como quem navega na escuridão, senti que precisava fazer algo dessa natureza. E fui achando o caminho.

Tendo a encenação ao fundo, como vê a relação entre letra e melodia?
Já aos 17 anos vi que não sabia fazer música. Tive de trabalhar no último reduto, onde o som e o ruído já não têm muita definitiva separação. E onde a palavra é experimentada nas condições que deem a ela peso e valor.

Qual o peso da palavra em sua formação?
A primeira coisa a dizer é que fui "bilíngue" na infância, pois falava a língua portuguesa do século 16 antes de aprender o português da cidade.

O que considera "língua do século 16"?
A dupla linguagem de que falo é a da pessoa educada fora do mundo aristotélico. Aos 7 anos, fomos apresentados ao mundo de Aristóteles, que interessava, é claro. Mas eu era "analfatóteles", uma criatura pronta para a vida. Criança não era criada como bibelô ou consumidor, era investimento, a gente trabalhava. Por isso, era exercitada nas coisas da sociedade, nas relações de trabalho e amizade, no amor e na teologia e em festas rituais. Ao chegar à escola, nosso cérebro já estava formado no mundo moçárabe, de séculos atrás.

Qual herança moçárabe?
Enquanto toda a Europa, com o fim do Império Romano, era reeducada pelos bárbaros cristãos, a península ibérica o era pelo povo mais culto do século 7 ao 15. O Nordeste é continuação disso. Daí Euclides da Cunha dizer que o sertanejo se manteve analfabeto, mas um espírito científico, na medida em que prestava atenção e conversava sobre tudo, como pesquisador da ciência.

Como se manifesta, na prática, essa "herança moçárabe da palavra"?
Em Irará não corre gota d'água, mas há uma dança dramática, a chegança, que tem por tema astrolábios, velame, quartante, sextante, madeirame, essa abordagem de lutas com espadas e viagens de navio. Pois em nosso horizonte houve a Escola de Sagres, com tudo o que Portugal reuniu da arte e da indústria náuticas. É herança desse tipo que identifico. Há a saga de Rolando, que virou peça de confronto dos cantadores. Há a lenda de Carlos Magno. E a maior de todas: a dos poetas provençais do século 11, que está em cantigas como "É um dia/ É um dado/ É um dedo/ Chapéu de dedo é dedal" e milhões de coisas do gênero.

E como isso desembocou em linguagem regional?
Na loja de meu pai aprendi a língua da roça, de que só podemos ter ideia hoje via Guimarães Rosa. A linguagem do balcão, do "entonce", é a das palavras que formam ideogramas - para dizer que algo era "vermelho", o sujeito arrodeia a expressão com termos como "cor de vinho" e diversas coisas vermelhas, como um ideograma faz para representar "vermelho". Até hoje, ao fazer canção, tenho presente essa riqueza ancestral. As coisas modernas que faço estão no passado. Mas é vanguarda porque é puro universo moçárabe.

E como esse universo repercute em sua música?
Por mais que a gente desfrute da maneira aristotélica de ver o mundo, sempre sobra algo, em nossa operação mental a conta nunca fecha de forma exata. Esse lixo lógico começou a ser jogado num canto remoto do cérebro, até ser apanhado por um raio, o desejo de criar. Então, veio ao córtex e se afirmou. Foi então natural que nossa produção fosse diferente do que se fazia na MPB dos anos 60. Ao criar o Tropicalismo cada um queria ser só mais um compositor. Mas foi aí que esse lixo lógico se mostrou útil. Foi isso que fez o Tropicalismo. Não Oswald de Andrade ou o rock internacional, como depois se afirmou.

O que quis dizer, em seu blog, sobre o brasileiro ter "horror às distâncias"?
Até para conquistar freguês, o brasileiro precisa fazer dele um amigo. É aquela coisa: o livro que me fez analfabeto foi Os Sertões, ao mostrar que o amor que eu tinha por saber, a universidade não tem. Ela o tem por uma inteligência que Sérgio Buarque de Holanda dizia não ser para unir e trabalhar, mas exibir em salões. Não é ferramenta de parceria e trabalho coletivo. É uma inteligência que separa. No Nordeste, a inteligência une. Quem conversa gosta de conversar, mas também de aprender. Luto para ir às pessoas com assuntos, não com exibição de saberes. A língua, que é a coisa axial do trabalho, é aquilo sobre o qual me prevaleço.
 
A palavra é uma dimensão importante ao brasileiro?
No lugar de onde vim as palavras eram a riqueza do mundo. Era hábito de toda pessoa curiosa e inteligente dar seu testemunho. Lá somos antropófagos, discutimos qualquer tema. Daí nossa criatividade vocabular. O jantar na fazenda da minha infância era às seis da tarde, e o candeeiro ficava aceso até as oito da noite. Um dia, em 1950, meu tio João nos visitava e a conversa despejou-se sobre uma pessoa que, quando engordava, engordava primeiro os braços. Na hora, me escapou: "É gordura bracética". Criança não tinha direito de abrir o bico. Por isso, falei aquilo meio de lado, a Marita, minha irmã. Meu tio teve um ataque de riso. Quando vi que era por minha causa, passei a vida perseguindo aquela reação de novo. Meu primeiro palco foi esse.

Vê relevância no fato de uma música ser criada em português brasileiro?
Antes da Bossa Nova, muitas canções queriam ser quase italianas no enunciar, sem sensibilidade de fazer carinho com as palavras em português. Mas no Nordeste os cantos de ninar já se faziam ora sonoros, ora engraçados, mas sempre enunciados com carinho: "Su, Su, menino mandu,/ Olho de gato,/ Nariz de peru", que é a malandragem nordestina de fingir defeito naquilo que mais se adora, o próprio filho. E plantar essa comicidade como se fosse o oposto do carinho, mas que é carinho novamente. O próprio Vieira usava muito o redutio ad absurdum. Está lá no sermão a são Benedito, que começa como se o insultasse. A maneira de a gente falar pornografia no Nordeste, por exemplo, não tem o ranço daqui do Sudeste, de algo sujo. A sonoridade de lá é a de milho estourando na panela quente. "Puta que pariu", dito por nordestino, parece instrumento de percussão.

É possível pensar um idioma de forma musical?
Há uma delicadeza da língua que nos segue desde o folclore. Eu gostava de coisas como "Arriba a saia peixão,/ Todo mundo arribou, você não" e "Zé, Zé, Zé Popô,/ foguete no ar/ é meu amor". Um dia, quebrei o DNA da canção folclórica, inseri o da vida moderna, citando pessoas do presente, e misturei com o folclore que elas cantavam. Lavagem da Igreja de Irará [1971] é talvez minha canção mais ousada. Hoje ela voltou ao folclore, porque os personagens nela citados já morreram. "Melânia, porta-bandeira,/ com mais de cem companheiras,/ lá vem puxando o cordão,/ com o estandarte na mão./ Em cada bloco de cinco,/ das quatro moças bonitas,/ tem três no meu coração,/ com duas já namorei,/ por uma eu quase chorei..." Era reflexo de um pensar não aristotélico essa coisa de a enumeração decrescente substituir a rima, e a cada momento o enunciador ficar mais comprometido com as moças.

Como a música deve lidar com a gramática?
Muitas são feitas para desrespeitar tais convenções. Um dia, Torquato Neto me ligou: ia usar "domingou" numa canção, transformar verbo em substantivo. O folclore está cheio dessas brincadeiras em que a língua é manejada como uma coisa cujo DNA está sempre em possibilidade de recombinação. A língua está montada sobre uma grande estrutura lógica e a gramática é quem ajuda a dar valor a coisas assim.
 
 
Fonte: Revista Língua

Enciclopédia Nordeste: Para saber mais sobre Tom Zé

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Palavras-chave: Musica, Cultura, Nordeste

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